15/05/2014 às 23h47min - Atualizada em 15/05/2014 às 23h47min

Jurema

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Isabela Gomes

            Ela estava deitada na grama. Deixava a água do rio escorrer,  passando pelas pontas de seus dedos. Alguns raios de sol conseguiam passar pelas densas copas das árvores com as folhas entrelaçadas umas nas outras. Ele estava sentado ao seu lado, apoiando-se em sua mão que estava na grama do outro lado da cintura dela.


            Enquanto ela olhava em seus olhos, podia jurar que o azul do céu era diferente, que a grama era mais verde, que havia parado de respirar.


            Jurema, que nunca amou ninguém, permitia-se  agora pousar seus olhos nos de um homem branco. Seus cabelos cor de avelã descansavam sobre seu corpo e acabavam perto de sua cintura. Seus olhos cor de mel, sorriam. Ela sorria por estar com o homem branco. Ele, com fios de cabelo loiro caindo pela face, gostava de admirá-la com seus olhos verdes. Não havia mulheres assim em Portugal.


            Mas, quem ama, bem sabe que pouco importa a beleza de fora. Pouco importa cabelos longos e ondulados ou os traços do corpo se o coração que lá dentro bate, não bate por amor. Pouco importa a cor dos olhos se eles não souberem sorrir. Pouco importa uma boca rosada, se seu beijos não são de carinho. Quem ama, bem sabe que as palavras de amor são mais importantes do que presentes materiais.


            Creio que posso dizer que Jurema deu sorte – apesar de eu não estar “de bem” com essa palavra por ela dar uma certa ideia de “mágica” – por ser assim. Bonita por dentro, bonita por fora. Jurema tinha olhos que sorriam, tinha uma boca rosada que beijava com carinho.


            O homem branco tinha sua beleza exterior e aprendia com Jurema a se lapidar por dentro. Ela o ensinou o sentido da palavra amor. Ensinou uma palavra que não existia em Portugal: saudade; e que também ganhou sentido quando se separaram pela primeira vez.


“Vem comigo à Portugal”

“Fica comigo aqui na Tribo”


            Não podiam deixar suas raízes, não queriam se separar. Despediram-se.

“Meu amor fica aqui, guardadinho, esperando tu voltar.” Jurema prometeu.

“Só não guarde muito escondido, dá de esquecer aonde está.”

“Prometo que guardo mas que todos os dias vou olhar, pra ter certeza de que não foi embora. Mas, para ser assim, o homem branco tem que prometer voltar”

“O homem branco promete.” Ele disse

            Gostara de Canaã, essa terra tão falada em Portugal, para onde voltaria afim de se despedir da família. Enquanto isso, o Brasil te esperava. E Jurema, sentada na beira da praia vendo o barco partir, chorava.

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