10/09/2012 às 10h58min - Atualizada em 10/09/2012 às 10h58min

Sombra Negra de Patricia Kaufmann

Mônica Filgueiras & Eduardo Machado Galeria convidam para a abertura da exposição

Flavia Fusco Comunicação

“Há vários anos, a artista Patrícia Kaufmann tem trabalhado com as tensões produzidas pela imagem padronizada da Barbie de maneira consistente, articulando forma e conceito em suas múltiplas leituras.

Transformando a Barbie em seu principal problema artístico, Patricia passou a perseguir seus desdobramentos.”

Parte de texto crítico assinado

por Katia Canton

A Mônica Filgueiras & Eduardo Machado Galeria abriu a exposição “Sombra Negra”, da artista Patricia Kaufmann, no dia 9 de agosto.

Estarão expostas 25 imagens em que a artista volta a discutir o mito da beleza se apropriando da boneca Barbie para a sua criação artística.

Patricia Kaufmann vem fazendo releituras e apropriações da boneca, em pintura, objetos, instalações e desenhos desde 2004, e se vale agora da fotografia para esta exposição.

“Muito me interessa esse mundo de “faz de conta” e impossibilidades, deste “ser de plástico” tão irreal, mas que tem a capacidade de mexer com a cabeça humana de forma tão distorcida”, revela a artista sobre seu trabalho, como em sua individual anterior, Máscaras do Mito, em que revelou  todo esse delírio.

SOMBRA NEGRA é um retrato da boneca em momentos reflexivos, introspectivos, solitários e despida de qualquer artifício de vestimenta ou acessório que faz alusão à riqueza e ao poder.

A Barbie está mais humanizada e próxima da mulher de verdade, com todas as suas inseguranças e questionamentos. Ela é mostrada sem rosto para que nós possamos nos enxergar nela. “A fotografia foi um meio que achei de mostrá-la em sentido dúbio – mulher ou boneca?”, fala Patricia sobre seu trabalho.

Serviço

Mônica Filgueiras & Eduardo Machado Galeria abre a exposição

Sombra Negra

de Patricia Kaufmann 

25 fotos

Abertura: dia 9 de agosto, quinta-feira, às 19h

Exposição: de 10 agosto até 15 setembro

Local: Mônica Filgueiras Galeria de Arte
Rua Bela Cintra, 1533
Tel (11) 3082-5292

Horário: 2a a 6ª feira, das 10h. às 19h.
Sábado, das 10h às 14:30h.

Site: www.monicafilgueirasgaleriadearte.com.br

Patricia Kaufmann

SOMBRA NEGRA

 

Não fosse pelos encaixes de membros que denunciam sutilmente a construção dos corpos  plásticos, as imagens bem que poderiam ser de garotas reais. Eis que a silhueta inventada pela indústria do brinquedo, esguia e longilínea em demasia para a proporcionalidade de seios fartos e uma micro-cintura, já pode ser identificada ou projetada nos corpos de verdade.

Trata-se do fato industrial produzindo uma realidade.

Modelo de beleza feminina, instantaneamente criado, desde o lançamento do produto no mercado norte-americano no início dos anos 1960, a Barbie sempre teve proporções consideradas impossíveis de serem reproduzidas em mulheres reais.

Ironicamente, enquanto feministas norte-americanas queimavam sutiãs em praça pública, a Barbie passava a ocupar locais privilegiados nas prateleiras das lojas de brinquedos, com sua figura loira de olhos azuis, sexy, magérrima e ao mesmo tempo curvilínea, vestida com modelos justos, preferencialmente na cor rosa e tons afins.

Essa imagem emblemática passou a encaixar-se como luva, correspondendo à perfeição a uma sociedade em que a infantilização do adulto se equiparou à erotização precoce da infância. E onde nada escapa à mercantilização.

Há vários anos, a artista Patrícia Kaufmann tem trabalhado com as tensões produzidas pela imagem padronizada da Barbie de maneira consistente, articulando forma e conceito em suas múltiplas leituras.

Transformando a Barbie em seu principal problema artístico, Patricia passou a perseguir seus desdobramentos. Criou, num primeiro momento, séries de pinturas em telas, utilizando máscaras que demarcavam os contornos da boneca nas posições frontal ou lateral.

As telas, pintadas com misturas feitas artesanalmente, utilizando pigmentos e base acrílica, funcionavam como um contraponto à massificação da imagem da boneca-mulher. Essa mesma ideia aparecia também nos desenhos, feitos sobre papéis artesanais com padronagens diversas. Escolhidos sempre a partir de uma combinação de tons, que vai de rosas a vermelhos, os papéis se tornavam panos de fundo, tingidos de matizes consideradas tipicamente femininas, contrastando com silhuetas negras desenhando o corpo da boneca.

Numa outra abordagem, trabalhando então com a tridimensionalidade, a artista passou a criar instalações feitas com objetos e com as próprias bonecas, colocando-as em situações cotidianas, ora grotescas, ora irônicas, ligadas aos absurdos da erotização contemporânea padronizada. Nessas séries, muitas vezes recobertas de uma dramaticidade kitsch, Barbies era cenograficamente inseridas em contextos clichês como o da pole dance, dos bairros de prostituição como o Red Light Zone, de Amsterdã, ou a revista Playboy.

Na série atual, focada no suporte fotográfico, Patricia Kaufman mantém o símbolo, mas modifica seu foco sobre ele. Ao invés de pinturas ou cenários com luzes e cores exuberantes, ela cria fotografias de sombras escuras, onde o corpo da boneca aparece desnudado das roupas e acessórios. O ambiente também é cru, desprovido de detalhes ou cenografias.

Não se engane, entretanto, com a sutileza dessas novas imagens. Apesar da aparência de tons rebaixados, as fotos carregam em si uma sensação incômoda e perturbadora. Elas nos fazem pensar nos desvios da percepção e na condição pós-humana em que vivemos, onde muitas vezes as regras que estão lá fora penetram por dentro de nosso corpo e nossa pele, e nos incutem formas de ser, viver, aparentar.

O perturbamento dessa nova série começa pelo próprio título, Sombra Negra. Ora, a sombra não é a imagem do objeto em si, mas sua projeção virtual. Nas fotos da artista, as bonecas-mulheres são escurecidas em relação ao fundo de luz estourada, mas o que está ali é o próprio corpo de plástico. Ou não é?

As sombras, o lusco-fusco, a insinuação das silhuetas fazem transparecer um argumento assustador e dramático, ligado a uma nova realidade sobre o ícone Barbie: a possibilidade de confundir suas formas com as de mulheres de verdade.

Se antes tínhamos como certo de que as proporções corpóreas vendidas pela indústria do plástico eram sem correspondência no corpo real, agora a vida imita o produto criado: nessa quase confusão entre o ser animado e o inanimado, a artista nos coloca num espaço sufocante e sem saída. Suas imagens delicadas parecem nos lembrar, afinal, que estamos desesperadamente buscando projetar no espelho a imagem idealizada de um ser de plástico.

Carne e plástico, humanidade e artifício, objeto e virtualidade, claro e escuro são oposições que se desdobram na linha constante que atravessa essa série de fotografias.

Vemos Barbies com seus contornos de corpos desnudos, às vezes apenas em detalhes fetichizados, como os pés calçados com saltos altíssimos, outras vezes em duplas femininas cujos corpos se tocam, como nas capas de revistas pornôs, outras ainda estampando posturas sexuadas, como o corpo deitado com quadris elevados.

Todas essas imagens compõem uma erótica pós-humana, a que o filósofo italiano Mario Perniola  se refere em seu livro, O Sex Appeal do Inorgânico. Segundo ele,  há cada vez mais espaço para uma erotização e um sentir pós-humano, que tem seu ponto de partida no homem, em seu impulso para o artificial, que o constituiu como tal, separando-o dos animais, em sua vontade de fazer coincidir a máxima virtualidade com a máxima efetividade (como no dinheiro), em sua irredutível tendência para uma experiência excessiva (1).

Barbies são seres neutros, ao mesmo tempo intoxicados pelo excesso. Mergulhados em sua extrema ambivalência, eles são ao mesmo tempo impessoais e, ao mesmo tempo, incrivelmente sedutores. Perniola chama esses objetos de corpos sem órgãos (2).

O corpo sem órgãos, que não pertence a nenhuma vontade, que não obedece a nenhum projeto, que está livre de qualquer vínculo, parece diluir-se num fluido que não tem nada de vital ou de espiritual...não é nem uma experiência, mas sim um experimento que só dá certo quando toda experiência subjetiva se tornou impossível: não é o meu corpo que alça vôo num êxtase, tampouco o seu...É justamente este sentir neutro de um corpo que não pertence a ninguém, mas cuja sensibilidade não nos é acessível, que o torna algo sempre disponível, a ponto de suscitar uma excitação infinita (3). 

Notas:

(1)-pg. 47 do livro O Sex Appeal do Inorgânico. SP: Studio Nobel, 2005.

(2)-o conceito de “corpo sem órgãos” aqui tem sentido diverso do termo utilizado por Gilles Deleuze, a partir de Antonin Artaud, que se referia a uma porosidade e uma plasticidade que ultrapassariam os limites biológicos do corpo.

(3)- pgs. 49 a 51 do livro O Sex Appeal do Inorgânico. SP: Studio Nobel, 200

*Katia Canton é PhD em Artes Interdisciplinares pela Universidade de Nova York e livre-docente em Teoria e Crítica de Arte pela ECA USP. É docente e curadora do Museu de Arte Contemporânea da USP e autora de vários livros sobre artes e histórias.

Sobre a artista

Patrícia Kaufmann nasceu em 1962.  Filha de artista plástica e restauradora de obras de arte, Patricia sempre viveu entre pincéis e tintas. Durante 3 anos, estudou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, importante celeiro da arte contemporânea e de vanguarda brasileira. Ainda no Rio, abre seu próprio atelier. Em 2000 Patricia veio para São Paulo onde vive e trabalha. Durante estes anos Patrícia estudou história da arte, gravura em metal, cologravura, serigrafia, aquarela e fotografia.  Patricia já fez várias exposições individuais e participou de exposições no Brasil e no exterior. Tem obras em acervos públicos e privados. Seus trabalhos poder ser encontrados na Mônica Filgueiras Galeria de Arte em São Paulo.

INDIVIDUAIS

2009     Máscaras do Mito        SESC - São José do Rio Preto

2008     Máscaras do Mito       Mônica Filgueiras Galeria de Arte - São Paulo

2008     Pinturas e Gravuras       Museu Histórico Rodrigues Alves - Guaratinguetá 

2005     Paintings and Collagraphs         AVA Galleria - Helsinki  Fi

2002     Ciclo        Espaço Cultural Banco Central do Brasil -  São Paulo

2000     Vaidade       Centro Cultural dos Correios - Rio de Janeiro

1998     Vanity       Artists’ Museum  - Washington DC

1997      Vitae          MyunSookLee Gallery  - New York

1996     Lótus         Museu Histórico Nacional - Rio de Janeiro

1993     Hard Square       Espaço Cultural Tabacow  - São Paulo

COLETIVAS

2012    “Vermelho” – Mônica Filgueiras & Eduardo Machado Galeria – São Paulo

2012    SP Arte     Pavilhão da Bienal, Parque do Ibirapuera - São Paulo

2011     Arte & Cultura no Vale do Paraíba - Palácio do Governo – Campos do Jordão

2011     SP Arte/foto – Shopping Iguatemi – São Paulo

2011     Códigos e Intenções – Galeria Ímpar – São Paulo

2011     SP Arte - Pavilhão da Bienal – Mônica Filgueiras Galeria de Arte - São Paulo

2009    SP Arte - Pavilhão da Bienal – Mônica Filgueiras Galeria de Arte - São Paulo

2009    Tupyexxx Mulder 3  -   Mônica Filgueiras Galeria de Arte -  São Paulo

2008    SP Arte     Pavilhão da Bienal, Parque do Ibirapuera - São Paulo

2007    SP Arte     Pavilhão da Bienal, Parque do Ibirapuera - São Paulo

2007     Ars Latina  -  Mexicali  -  México 

2007    Tupyexxx Mulder  -   Mônica Filgueiras Galeria de Arte - São Paulo

2006    Transversal  I   -  Galeria Caribé   -  São Paulo  

2006     Salve a Diferença        Galeria Cooperartista     Espaço Piva  -  São Paulo

2005      Art du Brésil        Domaine de L’Amiraute  -  Deauville   Fr

2005      Chapel Art Show         Chapel School  -  São Paulo

2004      Olhar  Impertinente        MAC  Ibirapuera  -  São Paulo

2004      Encontro          Gal. Tarsila do Amaral  -  Rio de Janeiro

2003      6º Salão Elke Hering          Fundação Cultural de Blumenau -  SC

2003      32ºSalão Bunkyo de Arte Contemporânea - Fundação Okada - São Paulo

2002      VAU       Espaço Cultural Banco Central do Brasil - São Paulo

2002     XVII Salão de Artes Plásticas Benedito Calixto  -  Itanhaém

2002     30º Salão Oficial de Resende   -  MAM - Resende

2002     52º Salão Oficial de Juiz de Fora     Soc. de Artes Plásticas A. Parreiras                     

2001     Artexpo - Jacob K. Javits Convention Center -  New York

2000    Todas as Mulheres   -  Projeto Artdoor  -  Rio de Janeiro

1998     Eu não sou daqui   -   Galpão das Artes  -  São Paulo

1998     Brazilian Art Expression  -   Caellum Gallery  -  New York

1997     Universidarte   -   Universidade Estácio de Sá -  Rio de Janeiro

1997     Brazilian Art in Washington       USDC - Washington D.C.

1997     Eixo Brasilia-Rio  -  Centro Cultural dos Correios  -  Brasília

1996     Quatro Olhares  -   Museu de Arte Moderna  -   Resende

1996     Plurolhar   -   Centro Cultural dos Correios -  Rio de Janeiro

1996     Criadoras Criaturas  -  Galeria Ana Terra  -  Vitória

1989     IV Salão E. Quissak  -  Museu Frei Galvão  -  Guaratinguetá

Coleção Pública

MAM                                                             Resende                                 

Centro Cultural dos Correios                 Rio de Janeiro   

SESC                                                              São José do Rio Preto            

COLEÇÃO PARTICULAR

W/ Brasil                                                      São Paulo                                                                 

Orange Advisory                                       São Paulo                                                 

Unidas                                                          Rio de Janeiro                                                          

Fleet One                                                     São Paulo                                                               

 TSI Animation                                            São Paulo                                                     

Prêmios

2002    Medalha de Ouro  - 17º Salão de Artes Plásticas Benedito Calixto

2002    Aquisição -  MAM  - Resende

2001    Medalha de Bronze – Art Expo  -  New York 


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