22/02/2015 às 22h35min - Atualizada em 22/02/2015 às 22h35min

Maquiavel e a Beija-Flor: Vale tudo para conseguir o que quer?

Não se engane: não existe ninguém limpo em jogo sujo

Iara Filardi

"Os fins justificam os meios". Quando ouvi essa frase pela primeira vez, me disseram que ela foi dita por um sujeito chamado Nicolau Maquiavel. A ideia é que se você tem um objetivo, não importa como você chegou lá. Os meios são só uma forma de chegar aonde se deseja. Se você ler o Príncipe, sua obra mais conhecida, vai ler sobre o genial caso de um sujeito que manda matar seu próprio comandante para adquirir a confiança da população local. Tudo pelo "objetivo" de chegar ao poder, não?

As lições de O Príncipe, se levadas ao pé da letra, nos levam a conclusões bastante cruéis, em uma lição bastante pragmática de como conseguir e manter o poder. Maquiavel entrou para a história como o cara que nos ensina essas coisas, e até hoje chamamos alguém de maquiavélico mais como um insulto do que como um elogio.

Acontece que nosso amigo Maquiavel sentiu na pele o que era viver à mercê dos poderosos. Seu livro o Príncipe é tido por muitos como uma tentativa do autor de reconquistar seu lugar perante a sociedade, após passar por um golpe de estado, quando teria, inclusive, sido preso e torturado. À primeira vista, O Príncipe parece um manual para governantes novatos. Se olharmos de perto, porém, o livro é um aviso a todos nós, reles mortais, das consequências de viver em um mundo onde os fins justificam os meios.

Tendo vivido entre a nobreza, muitos hoje veem a obra de Maquiavel como uma tentativa de contar ao resto do mundo o que acontecia "por trás das câmeras". Por essa visão, o próprio autor não concordaria que vale tudo para chegar aonde queremos, e "maquiavélico" adquire um significado muito mais positivo.

Vamos para o mundo de hoje. A crise de 2007-2008 que começou nos EUA e se alastrou pelo mundo fez com que muita gente parasse para pensar. As escolas de negócios (principalmente as melhores entre seus pares) perceberam que estavam colocando o foco demais em como chegar aos objetivos, fornecendo ferramentas e conhecimento para seus alunos desempenharem as funções de líderes, mas deixando de lado todo o contexto, que na maioria dos casos era tratado naquela coisa essencialmente chata chamada "aula de ética" (e antes que me joguem pedras, caros leitores, nunca vi um aluno gritar de emoção antes de uma aula dessas).

 

Em muitos casos, apareceram experiências positivas, com aulas de filosofia, literatura e ética sendo utilizadas em contextos modernos. Ainda é cedo para falar, mas pelo menos há um esforço em criar gestores capazes de colocar a mão na cabeça antes de fazer algo somente porque dá lucro. Em exemplos famosos, o fundo soberano da Noruega e o da Fundação Bill Gates colocaram em seus estatutos que não investiriam em empresas que "façam o mal", como indústrias de armas e tabaco (o fundo norueguês causou sensação na mídia um tempo atrás quando vendeu sua participação no Walmart após denúncias de maus tratos a funcionários). Várias outros fundos e empresas seguiram o exemplo, preferindo abrir mão da possibilidade de lucros a comprometer seus valores.

O que me leva ao Carnaval. Ah, o Carnaval. Aquela festa da alegria que toma conta do nosso país. Há quem diga que Carnaval é muito maior que o desfile da Sapucaí. Mas, ainda assim, o desfile é uma parte importante, ocupando nossos olhares toda vez que ligamos a TV nesse período. Também é grande parte da imagem que projetamos da nossa festa para fora do país.

Acontece que neste ano, em particular, uma escola de samba ganhou o prêmio principal homenageando uma certa ditadura africana. Como é normal que os homenageados paguem pela honra, a comemoração das belezas naturais do país foi paga pelo menos em parte por um déspota acusado de várias violações de direitos humanos.

Não me escapa a ironia de que o Carnaval tem a história toda banhada em sacanagem. As escolas de samba, desde o início, foram uma forma de os chefes do jogo do bicho ganharem seu espaço na sociedade. Alguns vão dizer que em Carnaval sempre teve sacanagem e é assim que as coisas são (alguns até dizem que a coisa toda começou com grandes festas pagãs antes mesmo de o cristianismo surgir).

Acontece que não existe ação sem responsabilidade. Imagine que após o Carnaval eu digo para um grande amigo meu que fui ao motel com a namorada dele. "Bem, os dois estávamos bêbados e ela é uma galinha." Uma explicação irresponsável e sexista que tira toda a responsabilidade de meus ombros. Se o sujeito quer namorar uma garota infiel, azar o dele, não é mesmo?

 

Não. Você pode saber que existem ditaduras sanguinárias no mundo, e entendo que não queira ir lá morrer para devolver a democracia aos outros. Ainda assim, pode dormir tranquilo sabendo que ao menos não tem participação naquilo.

No entanto, se você pega dinheiro deles, está assumindo parte da responsabilidade. Se você tem uma bela joia, mas alguém morreu para que ela saísse de algum canto esquecido do mundo e chegasse até você, esse belo diamante é também um diamante de sangue.

O exemplo do Carnaval nos lembra que nem sempre podemos contar com os juízes ou autoridades de plantão. Nesse caso, não passaram de burocratas desinteressados, com a mesma postura que já critiquei diversas vezes por aqui.

O que temos, na maioria das vezes, é o nosso bom senso, e ao menos a tentativa de criar novas gerações com um senso maior de responsabilidade. Alguém um dia irá explicar para a criança que vê aquela festa toda que aquilo é pago com dinheiro sujo. Será que queremos que a coisa continue assim?

Chega da desculpa de "sempre foi assim". Nenhum gestor em nenhum organizações pode se eximir das responsabilidades de seus atos. Não me venham com papo de que é difícil fazer Carnaval sem dinheiro sujo. Difícil é fazer uma cirurgia craniana, construir aviões, tentar curar o câncer. E no mundo todo há pessoas fazendo essas coisas todos os dias.
Como gestores, devemos no mínimo pensar na consequência de nossos atos, de onde vêm e para onde vão os recursos que passam pelas organizações. Os fins nem sempre justificam os meios, e muitas vezes é preciso abrir mão de algo para não comprometer nossos valores. Em muitos casos, não é um juiz que dirá o que é certo ou errado, mas a formação e consciência das pessoas que ocupam papéis de liderança.

A festa da semana passada foi feita com dinheiro de sangue. Resta esperar e educar para que as próximas não sejam.

 

Sobre o autor:

Fábio Zugman é paulistano e tem 35 anos. É professor universitário e Mestre em Administração pela UFPR. É autor dos livros Empreendedores esquecidos (Elsevier, 2011); Administração para profissionais liberais (Elsevier, 2005); Governo eletrônico: saiba tudo sobre essa revolução (Livro pronto, 2006); O mito da criatividade (Elsevier, 2008); e coautor de Dicionário de termos de estratégia empresarial (Atlas, 2009) e  Criatividade sem segredos (Atlas, 2010).


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