28/10/2021 às 09h36min - Atualizada em 28/10/2021 às 14h58min

A busca pelo rosto e o corpo perfeito: como isso impacta na sociedade?

A professora do curso de Psicologia da UniSul, Alessandra Scherer, Doutora em Psicologia da Saúde e especialista em psicoterapia cognitivo-comportamental, comenta os riscos para a saúde mental como a busca pela padronização de um estereótipo de beleza pré-definido pode influenciar as novas gerações

SALA DA NOTÍCIA Raiza Rodrigues
O padrão de beleza vem se modificado ao longo dos anos. Rosto mais quadrado, sobrancelha arqueada, o nariz fino, a boca carnuda. São muitas as modificações que têm sido procuradas por quem quer ter um rosto mais simétrico e equilibrado. 

Não é preciso procurar muito para encontrar pessoas mostrando os resultados de sua harmonização orofacial nas redes sociais, como o aumento de lábios, modelagem de nariz e rosto e também minimizar as rugas. De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, entre 2014 e 2019, o número de procedimentos de harmonização facial subiu de 72 mil para 256 mil ao ano, levando em conta apenas os procedimentos feitos em homens – um crescimento de 255%. A pandemia e as adaptações com o home office também potencializaram a relação das pessoas com o corpo e ajudou a elevar o número de cirurgias plásticas. Segundo pesquisa realizada pela ISAPS, Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica e Estética, 13,1% de todas as cirurgias plásticas realizadas no ano de 2019 foram no Brasil. O país liderou o ranking por dois anos seguidos, com mais de 11,3 milhões de procedimentos realizados. Durante a pandemia, com hospitais fechados para cirurgias não eletivas, a procura pelos procedimentos caiu, mas já no fim do ano passado, entre os meses de setembro e outubro de 2020, registrou-se um aumento de 30% na procura pelos procedimentos. 

Mas quais são as implicações em buscar o rosto e o corpo perfeito? Como essa padronização dos procedimentos de estética mexe com a cabeça das novas gerações e como isso impacta na vida das pessoas? Até onde esse comportamento é saudável e quando se torna uma doença? 

Para responder a essa e a outras perguntas e ajudar a entender melhor como os padrões estão sendo absorvidos pela sociedade e como isso pode prejudicar as novas gerações, preparamos uma entrevista ping pong com a professora do curso de Psicologia da UniSul, Alessandra Scherer, Doutora em Psicologia da Saúde e especialista em psicoterapia cognitivo-comportamental.

1 - Por que cresceu tanto a busca pelo rosto e corpo perfeitos? 
Na realidade, a gente tem desde sempre padrões que são vigentes. Em cada época ao longo da história, vai determinando o que é valorizado socialmente. Então esse valor é dado por aquilo que passa por ser reforçado socialmente como bonito. Isso é uma construção, uma construção social.

Hoje, temos muita velocidade para veicular o que é aceito como “padrões de beleza”, ou determinados padrões de beleza, que são muitas vezes rígidos e irreais, propagados pelas redes sociais. Porque, anteriormente, tínhamos uma forma de veicular que era bem mais lenta do que a que temos hoje, com esse facilitador digital que é a rede social, principalmente as redes sociais pautadas em imagem, como o Instagram, passamos a ter ali, ao alcance dos dedos, padrões de beleza distintos e muitas vezes que não são alcançáveis para boa parte da população. Isso faz com que as pessoas, principalmente jovens se pautem e almejem uma vida como a que é postada nas redes sociais, buscando ter determinados tipos de corpo, determinados tipos de traços, o que acaba impulsionando a busca por cirurgias, procedimentos estéticos, como harmonizações faciais.

2 - Quem costuma definir os padrões de beleza?
Os padrões são criados historicamente e socialmente. Isso se trata de uma construção social, não existe uma definição a priori ou um exemplo certo e assertivo do que é belo e o que é feio. Se pesquisarmos e voltarmos no tempo, ao longo das décadas, vamos ver que de acordo com o cenário sociocultural, que esse padrão vai mudando. 

Isso, é claro, tem influência da mídia, do cinema e outros meios de comunicação. Um exemplo clássico é o de figuras midiáticas, como a modelo Twiggy nas décadas de 60 e 70, veiculando entre adolescentes como em exemplo de extrema magreza, e isso traz consequências. Nem todo mundo tem o biotipo para ser magra. 
 
Mas, claro que com a possibilidade de propagação mais rápida e com a influência tão forte da era digital na vida das pessoas, esses padrões ficam mais palatáveis para serem literalmente consumidos, onde se vende uma ideia de que para se obter a imagem almejada, basta comprar um método que está sempre disponível, e que a todo momento é superado pela ilusão de que algo melhor está por vir. 

3 - Quais os perigos da busca desenfreada para alcançar o padrão de beleza que temos hoje?
A saúde mental está muito atrelada à liberdade. Quando aquilo deixa de ser uma escolha e se torna uma busca obsessiva que implica na perda de liberdade começamos a ter um problema, porque isso implica em muito sofrimento. 

Uma vez que não se consiga,  não se consegue estar bem. Então o perigo disso é a busca incessante, é a compulsão pela mudança. Olhando para o ramo da psicopatologia, a gente inclusive vai encontrar transtornos mentais que são diagnosticados pela psiquiatria contemporânea que se referem à dismorfia corporal, que seria um sofrimento relacionado à auto imagem, uma forma incessante de mudar o próprio corpo de modo a ultrapassar o limite do que do que passa a ser por vezes prejudicial para a própria saúde em função de uma mudança física.

Quando falamos em cirurgia plástica não é incomum esse tipo de sofrimento causado pelo dito transtorno dismórfico corporal, pois ao se alterar  compulsivamente o próprio rosto ou corpo, por exemplo, repercussões sociais são vivenciadas diante dessas alterações, algo mais do que a mudança em si, ou a obsessão pela mudança, pelo retoque, o perfeccionismo, essas alterações podem repercutir em múltiplos âmbitos da vida, como nos relacionamentos, na saúde física, e também psicológica. 

4 - Como essas definições têm influenciado e mexido com as novas gerações?
Nas áreas que se debruçam sobre a imagem corporal, os estudos mostram que cada vez mais cedo as crianças já estão vivenciando essa influência de padrões mais rígidos - e a questão toda está na rigidez. É de extrema importância falar sobre o assunto para as gerações mais novas, do porquê que é perigosa a suscetibilidade aos padrões impostos, da importância da validação do ser diferente e único. Da diversidade de corpos, de existências, e da beleza como uma melodia única e não replicável. 
Ao falarmos das crianças, os padrões vão se enrijecendo dentro do próprio contexto familiar, em que dentro da família já se vivencia valores inflexíveis acerca do que é bonito do que que é feio, bom ou ruim. A magreza é boa, é bom ser magro, e a criança cresce achando que qualquer coisa que fuja daquele padrão estabelecido não é aceito, é ruim. 
Isso vai sendo confirmado pela sociedade, então digamos que a gente tem várias formas de influência social e a família é uma delas, depois isso se estende para a escola e vai se prolongando e se perpetuando ao longo da vida. 
A questão da rigidez é um problema, o que é ser diferente? Diferente do quê? Se espera que as pessoas sejam diferentes, mas, em uma sociedade como a nossa que vem propagando padrões tão padronizados e tão rígidos é muito fácil e infelizmente comum que uma pessoa passe a se sentir diferente daquilo que se espera dela, que é justamente a expectativa idealizada do corpo, ou de um comportamento pré-estabelecido, ou de um relacionamento e de uma família perfeita. A pergunta que serve ser feita, é: perfeita para quem? Para ficar fora desse ideal é muito fácil, porque dificilmente se atende a todas essas expectativas. Existem até alguns movimentos, que não são novos, principalmente fora do país, por exemplo, que no meio da moda já se pensa em determinar um peso que seja mínimo para as modelos poderem desfilar. Isso ocorreu na Espanha. Por quê? Porque em meios como o da moda e da dança,  se tem índices altos de transtornos alimentares, como a bulimia e anorexia.

5 - Quando a busca pelo corpo e rosto perfeito deixa de ser saudável?
Deixa de ser saudável quando passa a produzir prejuízos para a vida da pessoa. Quando se tira a liberdade, quando  passa a ocasionar consequências que trazem sofrimento. A busca incessante por um ideal que para alcançá-lo é necessário um procedimento cirúrgico que nunca satisfaz, ou fazer uma dieta muito restritiva, dentre outros hábitos rotineiros e prática alimentares, que podem trazer consequências para a saúde,  quando a concebemos saúde do ponto de vista integral.
 
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