25/06/2012 às 00h39min - Atualizada em 25/06/2012 às 00h39min

Vitor Sapienza vê um quadro pouco animador

A falsidade da oferta "sem juros", a ser paga no "boleto bancário", ou em "dezenas de vezes”, esconde armadilhas perigosas.

Vitor Sapienza

Confesso que está um tanto difícil convencer um velho amigo de infância que ele precisa ficar mais atento aos seus gastos. E sempre que falamos a respeito, ele argumenta que, comprando sempre que pode, está ajudando a movimentar a economia. Tenho que admitir que ele não deixa de ter uma certa razão, quando pensa dessa maneira.

No entanto, o que ele não sabe, ou finge não saber é que, atendendo aos apelos da publicidade, virou refém de um consumismo desenfreado, de conseqüências desastrosas. Instigado pelas campanhas massivas, os incautos - geralmente pessoas de boa índole, e zelosas da integridade de seus nomes, atos e costumes - acabam vítimas desavisadas do perigo que correm.

Embora os números não sejam divulgados a contento, uma boa parcela dos consumidores com o nome dos serviços de restrição ao crédito são exatamente aqueles que confiaram nas facilidades do financiamento oferecido pelas empresas de varejo. Pessoas que se esquecem que a pequena parcela a ser paga, se somada a outras também pequenas, se transformam em grandes dívidas.

A falsidade da oferta "sem juros", a ser paga no "boleto bancário", ou em "dezenas de vezes”, esconde armadilhas perigosas. Somado a isso, a ilusão do poder de compra, tão divulgado pela publicidade oficial do Governo, incentiva o consumo muitas vezes desnecessário. O atendimento ao apelo consumista desconhece limites.

E esse consumo desenfreado mantém um leque bastante amplo; do carro novo à bebida; do eletrodoméstico à roupa de grife; do shampoo à jóia cara; do computador ao aparelho de telefonia celular. E o apelo consumista consegue, aos poucos, fazer com que o consumidor aceite a doutrina do "ter", no lugar do "ser".

Adota-se o hábito de comprar unicamente para expor uma condição nem sempre condizente com a real situação do devedor: compra-se porque a mensagem publicitária mandou. E as suas ordens são tácitas, e atingem do pequeno consumidor, adepto do tênis importado, das camisetas com etiqueta famosa, ou do lap top sofisticado, até o idoso que não resiste ao jogo de facas importado, estrela-mor de um churrasco que ele sonha ofertar aos amigos.

No auge do Plano Cruzado, em meados de 1986, o proprietário de uma rede de lojas de São Paulo dizia, com todas as letras, que o Plano iria por água abaixo por várias razões, e a principal delas era exatamente a onda consumista adotada pelo povo.

É evidente que hoje a situação é outra, em todos os sentidos. O Real está estabilizado, os juros estão em queda, e a economia estável, bastando apenas alguns ajustes. No entanto, temos que dar o alerta. Se o consumismo ajudou a derrubar um plano econômico, desta vez o perigo está distante, mas existe outro, e tão nocivo quanto o lado incauto de todos nós.

Pesquisadores de vários países colocam o consumismo no mesmo nível da dependência provocada por novas tecnologias como internet, jogos eletrônicos, telefones móveis. Sabemos que o risco existe, mas não vamos, aqui, condenar nem podar as ações de marketing aplicadas pelas empresas. Cabe à sociedade reagir e adotar uma conduta de modo a que os seus participantes conheçam as consequências dos abusos que porventura praticarem. Ou seja, o quadro é pouco animador.

Vitor Sapienza é deputado estadual (PPS), presidente da Comissão de Ciência, Tecnologia e Informação, ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, economista e agente fiscal de rendas aposentado. Acesse: www.vitorsapienza.com.br


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