30/06/2021 às 11h51min - Atualizada em 30/06/2021 às 20h38min

As redes sociais e a produção de verdades

Luís Fernando Lopes(*)

SALA DA NOTÍCIA NQM
http://www.uninter.com
Divulgação
O tema da verdade é genuinamente filosófico. Entretanto, a verdade também é um tema religioso, científico, popular, entre outros. Afinal, quem nunca ouviu perguntas do tipo: será que é verdade mesmo? Ou afirmações como: duvido que isso seja verdade.

Na filosofia clássica cristã, segundo Tomás de Aquino, a verdade é compreendida como a adequação entre ideia e objeto. “Veritas est adaequatio rei et intellectus”. Já a noção bíblica de verdade enfatiza a palavra de Deus que é fiel e coerente. Ou seja, Deus promete e Deus cumpre. Deus diz e Deus faz.

Essa noção bíblica vai diretamente de encontro com algumas expressões corriqueiras como: “faça o que eu digo, mas não faça o que eu falo”, ou ainda: “isso só funciona na teoria, porque não prática é bem diferente. Enfim, a noção de verdade mostra-se distanciada da coerência entre falar e fazer, pensar e agir de acordo com o que foi pensado.
Sócrates no século V a.C., embora não tenha deixado nada por escrito, ficou conhecido por intermédio de seus discípulos, por ensinar o “bem pensar para bem viver”. Mas desde que Sócrates fora condenado a beber cicuta parece ser constante ao longo da história esse distanciamento entre saber e fazer.

Nosso tempo é de redes sociais, vídeos, fotos, lives, notícias, enfim vivemos numa espécie de ágora digital, que, não obstante a todas as formas de controle possíveis, oferece oportunidade de acesso e ao mesmo tempo de compartilhamento de informações. Nas redes sociais e na internet, de maneira geral, podemos encontrar todo tipo de opiniões e informações, cujas reais intenções nem sempre são manifestas. Tal qual consideravam os sofistas, o importante era convencer quem quer que fosse, lançando mão de artifícios retóricos, independente do fato se o que se defendia era verdade ou não.

Não deixando de lado o risco de ser anacrônico é possível identificar em nosso contexto, marcado entre outros problemas pela presença das Fake News (notícias falsas), que os interesses particulares levam a um total desprezo pela verdade, se por ela entendemos a coerência entre falar e agir. Busca-se convencer a todo custo. Usam-se memes, vídeos e imagens editadas, entre outros materiais, com o intuito de preservar interesses ou simplesmente para mostrar superioridade, ainda que isso implique na disseminação do ódio gestado na base da mentira. Desconsideram-se, inclusive, as consequências legais de tais atos.

O que vemos, o que compartilhamos? O que nos tem motivado a fazê-lo? Fazer prevalecer a verdade? Qual verdade? Sobre o quê? Verdade de quem? Não raro as redes sociais apenas nos mantém fechados em nosso próprio caleidoscópio reverberando os próprios pontos de vista.   

Averiguar a veracidade de informações e denunciar todo tipo de preconceito e discriminação, injúria, calúnia, difamação (crimes inclusive previstos nos artigos 138, 139 e 140 do Código Penal Brasileiro) precisam ser tornar hábitos, pois no ambiente virtual estamos todos expostos aos riscos, assim como temos acesso aos benefícios proporcionados.

Luís Fernando Lopes é Doutor em Educação e Professor do Curso de Filosofia da Área de Humanidades do Centro Universitário Internacional UNINTER
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