16/09/2014 às 16h19min - Atualizada em 18/09/2014 às 16h55min

Uma palmada no bumbum é crime?

“Nos últimos 20 anos recebo no consultório muitos pais inseguros em relação à educação dos seus filhos. Confusos com a Lei da Palmada. Não sabem se podem dar castigo, ou não”.

CGC Educação

*Paulo Afonso Caruso Ronca é Doutor em Psicologia Educacional e Diretor Clínico do Instituto Esplan

 

“Nos últimos 20 anos recebo no consultório muitos pais inseguros em relação à educação dos seus filhos. Confusos com a  Lei da Palmada. Não sabem se podem dar castigo, ou não”.

 

 

 

A vida é uma escada na qual, ao subir, amadurecemos. Aquelas palmadas e o dormir sozinho me fizeram escalar, quem sabe, uma dezena de degraus seguidos de uma só vez. Perguntar-me-iam os leitores curiosos: o que fiz  para sanar aquele trauma das palmadas?
 
 
CORRIA O ANO DE 1954. Era um dia desses corriqueiros na vida de qualquer menino do mundo. Eu era um menino comum como qualquer outro. Não me lembro de quase nada, só de alguns flashes, ou como queiram, de lampejos. Na primeira infância, a memória funciona como fotografias, poucas, instantâneas, e não como um filme corrido. O que se há de fazer?
 
Eu tinha seis anos e passo a lhes contar o fato mais traumático de minha vida. Foi tudo tão penoso, mas tão penoso, que até hoje ainda o levo ao meu divã, leia-se, ao meu querido divã; ambos nunca nos separamos. Morava com meus pais e mais quatro irmãos — todos os homens, diga-se — em casa grande, ensolarada e circundada por um jardim que, de tão vasto e arborizado, era adequado para se fazer coisas ocultas, artes às escondidas, enfim, bem clandestinas; tudo de mão beijada para um garoto como eu.
 
Originário da província de Verona, região do Vêneto, norte da Itália, meu pai era sócio em uma pequena fábrica de vinhos que, oriundos de Caxias do Sul, eram engarrafados para venda em São Paulo. Vinhos Ronca! Com muito orgulho, sempre que podia ele trazia miniaturas das garrafas e as deixava em móvel antigo, bem apropriado para enfeites e coisas que tais. Eram idênticas aos produtos vendidos: vinho tinto, branco, vermute, aguardente, champanhe, etc. e tal. Entardecia, meu pai já havia chegado do trabalho e lia o jornal na sala. Não deu outra. Sorrateiramente, peguei duas miniaturas e fui ao jardim brincar. Mas brincar do quê, minha Santa? Nem Baco, deus do vinho, saberia divertir-se com aquelas minúsculas garrafinhas.
 
Enquanto brincava, uma escapuliu de minha mão e se quebrou ao meio, ficando ali no chão hipnotizada, esperando que eu lhe desse fim. A pobrezinha, agora meia garrafinha, transformou-se em arma arriscada com formato pontiagudo. Minha cabeça deve ter girado como um peão ao redor de si e sem sair do lugar. Tremia como uma vara verde. Fazer o quê... o quê...meu pai... o orgulho dele... fazer o quê com aquilo que restou...?
 
De pronto, ato impensado, peguei aquele apavorante esqueleto de vidro e o joguei na rua, por cima do muro. Completado o crime, pé ante pé, coloquei a outra miniatura no seu devido lugar. Aliviado, nem imaginara que o destino me aprontaria uma boa. É sempre assim.
 
Mais adulto, fui encontrar em Fernando Pessoa uma explicação entre poética e triste: Todos temos por onde sermos desprezíveis. Cada um de nós traz consigo um crime feito ou o crime que a alma lhe pede para fazer. Horas depois, a campainha soou. Fui abrir a porta, todavia, meu pai o fez antes de mim. Fiquei atrás dele, à espreita.
 
Assustado, vi dois homens estranhos, para não dizer estranhíssimos. Um deles, um guarda civil, escondia os cabelos dentro de quepe azul; o outro, também escondia os cabelos, porém dentro de uma faixa de gaze amarelada que envolvia toda a cabeça. Essa cena está presente até hoje em minha alma, como se fosse uma imagem perseguidora.
 
Alguém o teria esfaqueado? Agredido, assaltado? Alguém o teria atingido... alguém... fui eu... sim, a garrafinha! Todas as crianças enxergam os adultos muito maiores em tamanho, dimensão e altura; mas aqueles mais pareciam monstros desiguais e assombrosos.
 
Quando se olha muito para o abismo, o abismo olha para você, diria Nietzsche. De tanto olhar aqueles homenzarrões conversando, eu os senti olhando para mim...
Falavam, falavam, falavam.
Não me lembro bem, contudo a conversa foi tão longa, que deu tempo de me esconder. Fui ao quintal. Ato contínuo, meu pai chamou todos os filhos à sala, um por um. Sua voz ainda está soando em meus ouvidos. Óbvio, não compareci, o que o fez gritar o meu nome e sobrenome, na soleira da porta da cozinha. Colocou-nos um ao lado do outro, como se fôssemos soldadinhos de chumbo. A princípio, disse nada, simplesmente mostrou a garrafinha pontiaguda. Então, perguntou:
 
— Quem foi?
 
Naquele tempo, os pais não falavam coisa alguma. Agiam e pronto.  Como nenhum dos quatro ousou falar, olhou por cima de seus enormes óculos cor tartaruga, percorrendo o rosto de cada um. Seus olhos pararam sobre os meus e só vi aquele assombroso ser se aproximando. Pai não erra.  Pegou-me pelo braço, virou-me e o silêncio sepulcral só foi quebrado pelo som enérgico de duas palmadas em meu bumbum e uma ordem a ser obedecida:
 
— Já para cama!
 
Deitei-me junto a uma terrível solidão, como se fosse o único ser no Universo. Esperei as lágrimas secarem para o sono chegar.
 
Não me recordo mais de nada, só que, bem mais velho, minha mãe narrou, tim-tim por tim-tim, o restante da história. Relatou que, manhã seguinte, encontrei-me com meu pai e com ela no café da manhã e corri para o seu colo pedindo-lhe desculpas. Já tranquilo, ele me pedira um “abraço de urso”  corriqueiro entre mim e ele. Simbolizava amizade, carinho e que
aquele episódio estava finalizado.
 
Disse que, depois de meu pai ter saído, colocou-me em seu colo e, acariciando-me, esclareceu o porquê da atitude dele na noite passada. Reviveu o diálogo que se travou entre ela e mim, narrando a possibilidade de um processo judicial que ele poderia responder.
Foi assim:
 
— Mãe, o que é um “proqueso pudicial”?
— Processo judicial, meu querido, é quando uma criança faz
uma coisa muito errada e os pais têm de ir à polícia explicar.
— E o papai, onde está?
— Foi ao hospital fazer uns exames. Ele não anda nada bem
de saúde.
— Ele vai morrer?
Por ser muito religiosa, falou-me sussurrando:
— Isso só Deus é quem sabe.
— Mas se Deus sabe, Ele não vai deixar, não é?
— Sim, mais tarde você compreenderá tudo. Agora eu preciso
ir ao encontro dele.
— Posso ir junto?
— Não, hospital não é lugar de criança. Vá ao quintal brincar.
E não faça bobagem.
* * *
A vida é uma escada na qual, ao subir, amadurecemos. Aquelas palmadas e o dormir sozinho me fizeram escalar, quem sabe, uma dezena de degraus seguidos de uma só vez. Perguntar-me-iam os leitores curiosos: o que fiz para sanar aquele trauma das palmadas?
Não, não, não.
 
Esqueci-me de contar-lhe que não houve traumatismo nenhum por causa das palmadas. Estas, como outras, foram assimiladas pelo meu organismo físico e psicológico.
Palmada dada por motivo justo e com moderação não dói.
Se doer, creia-me, faz-nos crescer.
* * *
O que eu queria lhe dizer é outra coisa. Às vezes, a vida nos impõe circunstâncias de tanta amargura, mas de tanta amargura, que o sofrimento vira um trauma; aí, é sofrer ou sofrer, sem escolha; a dor tem de ser sentida.
 
Aprendi na carne e logo cedo que o humano a quem a dor não educa, não cresce, nunca amadurecerá e será uma eterna criança. Entendamo-nos finalmente, pois explico melhor.
Leitor, o trauma a que me referi lá no começo deste conto, este sim grave, cruel e terrível aconteceu alguns poucos meses depois, quando meu pai querido morreu de câncer.
Aí, sim, quis o destino marcar meu coração a ferro e fogo.
Para sempre.
 
·         Reprodução do 1º capítulo do Livro “Senta e Pensa” – Construindo os Limites na Infância que será lançado no dia 25 de outubro, pela Editora Esplan. Vídeo de apresentação
 
 
CONVITE:
 
O Instituto Esplan e a Editora Edesplan convidam para o cocktail  de lançamento e tarde de autógrafos do livro Senta e Pensa – Construindo os limites na infância de Paulo Afonso Caruso Ronca.
 
Data: 25/10/2014 – sábado
Horário: 16 às 19h30 horas
Endereço: Rua Said Aiach, nº 150, Paraíso,  São Paulo,
Metrô Paraíso.
Fones: 11- 3885-0931   11  99-133-8997  
 
 

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