29/04/2021 às 20h49min - Atualizada em 29/04/2021 às 21h06min

Não existe sofrimento estranho

Luiz Alexandre Solano Rossi (*)

SALA DA NOTÍCIA NQM
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Diante da tragédia épica que atinge a todos os brasileiros e brasileiras é necessário reconhecer que não existe sofrimento estranho. O sofrimento e as lágrimas dele resultante jamais podem ser pensados como algo privatizado. Necessariamente, eles alcançam a todos e todas e, por isso, deveriam ser considerados públicos, ou seja, todos podem escutar a voz dos que sofrem e, de alguma maneira, agir.

Porém, é excessivamente forte a tentação de evitarmos o sofrimento, principalmente dos outros. Soa, até mesmo como se fosse natural, fechar os olhos ao nos deparar com outros olhos e olhares que demonstram sofrimento. Se religiosamente acredita-se que Deus é maior do que o sofrimento vivido, será que manteríamos a mesma convicção em relação às pessoas que nos cercam, ou seja, elas manifestariam solidariedade e ternura em meio à insuportável dor vivida?

Numa sociedade que estimula o individualismo e potencializa o narcisismo, não é de estranhar que a insensibilidade do ser humano também se faça presente. Somos naturalmente insensíveis à dor, desde que não seja a nossa própria dor. Possivelmente é dessa insensibilidade “natural” que morrem as pessoas. Todavia, seria possível humanizar a dor? Talvez sim. Mas, para isso deveríamos considerar seriamente o conselho de Simenon: “para entender a aflição de outras pessoas provavelmente se faz necessário colocar-se, pelo menos durante alguns minutos, uma vez na vida, no lugar de cada uma delas”.

Não existe sofrimento estranho. A prática da solidariedade torna-se tanto uma fonte de desejo quanto de esperança abastecido pela fraternidade que presumidamente existe em todo ser humano. Assim, onde quer que exista o sofrimento, mesmo que distante cada um de nós está relacionado com ele. Os que sofrem estão umbilicalmente relacionados com os que não sofrem. Um e outro são inseparáveis, pois a dor não escolhe entre amigos e inimigos.

Não existe sofrimento estranho porque ele afeta a todos. Somos coparticipes dele. E, por isso, somos continuamente interrogados sobre o que fazemos com a nossa vida. Onde nos encontramos diante do sofrimento que atinge com fortes ondas a centenas de milhares? Sofremos junto com as vítimas ou nos posicionamos ao lado dos causadores de sofrimento?

Devemos 
considerar que o sofrimento não admite neutralidade e, até mesmo arriscaria dizer que, vicariamente, sofremos pelos outros. Um sofrimento que nos liberta ao libertar nossos próximos das dores sofridas.

As condições sociais determinantes do sofrimento podem ser alteradas a partir das ações de cada um. Possuímos a capacidade de mudar e de aprender com o sofrimento ao invés de nos tornarmos insensivelmente piores. No entanto, algumas barreiras precisam ser ultrapassadas, haja vista que elas não são intransponíveis. E, nesse sentido, duas barreiras podem ser vistas como predominantes e precisam ser urgentemente vencidas: a primeira delas é o embrutecimento do ser humano e, a segunda, é a insensibilidade. Assim, a única maneira de vencer as barreiras que se apresentam seria a de compartilhar a dor dos que sofrem, não os abandonar à própria sorte e, além disso, fazer com que o clamor de cada um deles encontre eco em nossas próprias vidas.

A ternura e a solidariedade são imperecíveis e devem superabundar em meio à tragédia.

(*) Luiz Alexandre Solano Rossi é doutor em Ciências da Religião e professor do curso de Teologia Bíblica Interconfessional da área de Humanidades do Centro Universitário Internacional UNINTER

 
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