23/09/2020 às 21h23min - Atualizada em 29/09/2020 às 10h14min

Edson Hydalgo Junior-A imunização de rebanho é um caminho viável?

A taxa de contágio em cidades como Manaus e São Paulo vem caindo sem o confinamento, porém estudos problematizam o conceito da imunização de rebanho
 
            Desde o início da pandemia do novo coronavírus, o debate público brasileiro foi inflamado pela dicotomia entre aqueles que defendiam o isolamento social como medida preventiva, com o fechamento de estabelecimentos comerciais e redução no deslocamento das populações nas cidades, e aqueles que se colocam contra o lockdown, o que aceleraria o processo de contágio e criação de anticorpos na população. A segunda alternativa, de manter o cotidiano normal, perdeu força quando cidades como Milão, na Itália, optaram por ela e viram seu sistema de saúde colapsar, apresentando contornos mais dramáticos à crise. Após meses de pandemia, diversas cidades e até países voltaram a normalizar o funcionamento dos seus centros urbanos. Em vários locais, há uma certa uniformidade na evolução da crise e no seu findar: o vírus aparece, a taxa sobe, atinge o pico e cai após a imposição de políticas de confinamento.
Por outro lado, a prática de algumas cidades apresenta uma realidade palpável de fortalecer o discurso da imunização. Centros urbanos como Manaus e São Paulo viram o número de doentes cair mesmo sem políticas severas de confinamento social — o que reacende a ideia da imunização de rebanho. Porém, diversos lugares em que já se via uma taxa de contágio segura para a reabertura tiveram que voltar atrás para conter uma nova onda do avanço da infecciosidade.
O empresário Edson Hydalgo Júnior avalia que a crise do Covid-19 tem como particularidade essa dinâmica de ir mostrando suas diferentes facetas ao longo do tempo, o que gera incerteza. “Em 2008 a crise veio e foi devastadora para o mercado, talvez com proporções até maiores do que a do Covid-19. Ela veio, devastou o mercado e todo mundo já tinha uma dimensão do que ela representava. Nesta crise, nós não temos informações sólidas sobre a vacina, imunização, até mesmo a sua duração”, explica.
Ainda revela uma preocupação de uma nova crise que pode surgir após o fim da vivida atualmente. “Se a gente for analisar o que pode aparecer depois e os impactos reais que isso pode gerar, tanto financeiro como psicológicos, temos o potencial de ter problemas muito maiores do que o próprio impacto gerado pelo coronavírus em si”, complementa.
Atualmente, o brasileiro vive uma reabertura do comércio em plena crise. Enquanto de um lado há uma preocupação com o bem estar da população relativo a medidas dessa natureza, exemplos como da cidade de Manaus que após o pico de contágio e uma saturação nos hospitais da cidade, o número de casos caiu — mesmo sem uma política severa de lockdown. A cidade de São Paulo também segue um caminho parecido, apesar dos números ainda assustarem, há uma queda no volume de infecciosos.
Ambos os casos foram utilizados pelo respeitado biólogo Fernando Reinach, em coluna para o jornal Estado de São Paulo, a levantar a possibilidade da imunização de rebanho no país — o que seria uma belíssima notícia para os mais de 200 milhões de brasileiros.
De acordo com o biólogo, a imunidade de rebanho se refere a um estado em que o número de pessoas resistentes ao vírus atinge uma fração suficientemente alta da população para que o vírus não encontre pessoas suscetíveis à infecção. No caso da Sars-Cov-2 a imunidade de rebanho se torna uma realidade quando 60% da população já foi infectada. Além de uma vacina — que potencializaria a imunização da população — a possibilidade de imunidade de rebanho é outra grande esperança para que se possa normalizar o cotidiano. No entanto, nenhuma cidade no mundo alcançou o patamar de 60% da população infectada. Para dar uma dimensão dessa problemática, em regiões pobres da cidade de São Paulo, que tiveram taxas consideradas muito altas, o índice de contágio chegou a 16% da população.
No entanto, Reinach questiona os modelos utilizados para análise e afirma que, no âmbito da capital paulista por exemplo, há uma variável da heterogeneidade da população. Os estudos levam em conta o modelo SEIR, em que as iniciais se referem a evolução de uma pandemia, as pessoas estariam “Suscetíveis” ao vírus, então ficariam “Expostas”, depois disso “Infectadas” e por fim “Recuperadas”. Esta medida, no entanto, tende a ser generalista e abrange toda uma população durante uma pandemia ao longo do tempo. No apse da crise, aumentaria o número dos “Es” e “Is” e com o fim da crise seria caracterizado pelo predomínio das populações “Ss” e “Rs”. Porém, o biólogo explica que quanto maior a heterogeneidade da população, menor seria o índice necessário para a imunidade de rebanho — tudo com base em estudos científicos.
Ao mesmo tempo, no mesmo fim de semana, o portal Uol veiculou um estudo espanhol publicado na renomada revista “The Lancet”. Nele, afirma que apenas 5% da população da Espanha teria desenvolvido anticorpos para se defender do novo coronavírus. O ponto defendido pela publicação é que a imunização de rebanho seria algo inatingível no caso do Covid-19, pois após o pico e a queda na taxa de contagio um total de 95% da população espanhola ainda permanecia suscetível ao vírus. Em entrevista concedida à CNN, o Centro Europeu de Controle de Doenças contou que a pesquisa foi a maior já realizada no território europeu — com 61 mil participantes.
A revista “The Lancet” ainda afirma, com base em estudos semelhantes realizados na China e nos Estados Unidos, que a maior descoberta fruto dessas pesquisas até agora é que a maior parte da população parece não ter sido exposta ao vírus, também não existem dados sólidos para garantir que a pessoa com anticorpos esteja segura contra uma nova infecção do Covid-19. Somado a isso, ainda pondera que não há dados concretos sobre a durabilidade desses anticorpos.
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