30/06/2020 às 12h18min - Atualizada em 30/06/2020 às 12h18min

Motoboys de apps de delivery se organizam para greve no dia 1º de julho

Redação

Na próxima quarta-feira, 1º, os motociclistas responsáveis pelas entregas de apps farão a primeira greve da categoria. A paralisação começa por volta das 9h e deve atingir as principais praças nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Pernambuco. O movimento busca legislação específica para a categoria, direito à defesa nos casos de bloqueio e banimento do entregador da plataforma, responsabilidade das empresas em fornecer EPIs para proteção contra o novo coronavírus, melhores condições de pagamento e trabalho, seguros de vida e acidentes bancados pelos apps e garantir o direito celetista do trabalhador – atualmente os entregadores trabalham como autônomos, ou seja, sem registro em carteira.
 
O movimento ganhou notoriedade com os protestos de parte da categoria contra o crescimento do fascismo no Brasil no começo do junho e após uma matéria do Intercept Brasil sobre as condições de trabalho dos motoboys mostrar Paulo Lima (também conhecido como Paulo Galo), o líder do grupo Entregadores Antifascistas. Com o destaque na mídia e nas redes sociais, Lima vem lutando pelos direitos dos trabalhadores. Criou uma página no Changes em prol da causa, que teve mais de 364 mil assinaturas; no Instagram, a página principal do grupo Entregadores Antifascistas chegou 17,4 mil seguidores, e criou ramificações em outros estados brasileiros. Além disso, o líder do movimento vem se engajando em conversas com líderes políticos e da sociedade civil.
 
“Antes de começar (a conversa) eu preciso dizer que a greve é uma coisa, e que o movimento antifascista é outra. São movimentos diferentes. Nós queremos empoderar o trabalhador através da greve. Queremos café da manhã, almoço, jantar, lanche da madrugada. Mas, principalmente, fazer reconhecer o vínculo empregatício com a CLT”, disse Lima, ao explicar que apoia o movimento grevista, mas não tem ligação com entidades de classe. “Quando percebi que tinha um grupo se movimentando, busquei ajudar com o nosso conhecimento para impulsionar a greve. Temos que nos unir. O movimento (Entregadores Antifascistas) está de ‘stand by’ para apoiar a greve”.
 
Classe
Na outra frente do movimento, o Sindicato dos Motociclistas de São Paulo (SindimotoSP) se organiza para a greve começar com concentração a partir de sua sede, na zona sul de São Paulo. Com expectativa de juntar 10 mil motoboys na quarta-feira, 29, a entidade de classe pretende fazer uma ‘motorreata’ até a sede do Ministério Público do Trabalho, passando antes pelas principais ruas da capital. O vice-presidente do SindimotoSP, Gerson Cunha, tratou de dizer que a entidade é agnóstica e não tem ligação com os Entregadores Antifascistas. Mas, na conversa com Mobile Time, Cunha defendeu as mesmas bandeiras: “Esse movimento é contra a precarização do setor. Hoje os meninos têm mais trabalho (mais horas rodando) e menos corridas, fazendo com que trabalhem mais ganhando menos”.
 
Diálogo
Cunha foi questionado se há linha de diálogo com os apps. Ele afirmou que as empresas não procuraram a entidade de classe, mas ressaltou que “não tem negociação”, pois a questão já está no judiciário: “Inclusive uma empresa perdeu em primeira instância. E perdeu com outra em uma ação no MPT. O que pode fazer é o tribunal chamar para negociar ou fazer TAC.”
Lima, por sua vez, disse que as companhias também não entraram em contato. Contudo, ele revelou a esta publicação que uma celebridade o procurou para intermediar uma conversa com os controladores dos aplicativos de delivery.
“Ninguém nunca procurou a gente. Mas um apresentador famoso se ofereceu para fazer a ponte entre mim e os apps. Não sei o que vai dar. A questão é que, até aqui, os donos de apps não têm diálogo com o entregador, só com os acionistas”, explicou o líder do movimento antifascista. “Até lá, nós vamos nos organizando. Estamos montando um fundo para garantir o trabalhador em casa, se ele se machucar”.
 
Empresas
As empresas 99, Delivery Center, James, iFood, Loggi, Uber e Rappi, além da Associação Brasileira de O2O (ABO2O) que reúne as plataformas que atuam neste meio comercial, foram procuradas para esclarecer suas posições sobre a greve e em relação às medidas que estão tomando para evitar uma possível interrupção de suas entregas.
 
99
A 99, controladora do 99Food, disse que desde o início da pandemia, adotou medidas para reduzir o contágio pelo novo coronavírus, como: fundo de apoio financeiro para entregadores parceiros diagnosticados com a doença; distribuição de máscaras e álcool em gel; envio de mensagens de prevenção pelo aplicativo; duplicação de gorjetas oferecidas pelos clientes; distribuição de lacres de segurança para os restaurantes; implementação de entregas sem contato, entre outras.
 
iFood
O iFood informou que segue critérios para desativar/reativar um motoboy da plataforma. É feita uma conversa por chat específico para esclarecer se o entregador associado descumpriu alguma regra da plataforma, e, se houve erro, a conta é reativada. Disse que não adota critérios de bloqueio por ranking ou avaliação, com o associado sendo bloqueado apenas por 15 minutos (em média) quando rejeita uma corrida. A companhia lembrou ainda que oferece seguro de acidente pessoal sem custos aos motoboys desde 2019, do momento que faz o login até o retorno para sua casa (até 30 km depois de sua última corrida. E recorda que desde março implementou medidas protetivas contra o novo coronavírus, disponibilizou um fundo de benefícios – com R$ 25 milhões gastos até o momento – em saúde para os entregadores e distribuiu kits de higienização com duração para um mês. Vale dizer que a distribuição aconteceu em abril.
A empresa da Movile ainda compartilhou informações operacionais. Disse que o valor médio por rota é de R$ 8,46, com todos os valores pagos informados antes aos motociclistas, e, mesmo em distâncias curtas a firma oferece R$ 5 de taxa mínima: “Em maio, o valor médio por hora dos entregadores foi de R$ 21,80. Para fins de comparação apenas, esse valor é 4,6 vezes maior do que o pago por hora tendo como base o salário mínimo vigente no País. Esses entregadores foram responsáveis por 74% dos pedidos. Pelos dados do iFood, os ganhos médios mensais do grupo que têm a atividade de entregas como fonte principal de renda (37% do total) aumentaram 70% em maio quando comparados a fevereiro”.
 
Rappi
Por sua vez, a Rappi informou que oferece desde o ano passado seguro de vida e inaugurou bases físicas para descanso dos entregadores (Rappi Points). Criou um mapa de demanda para ajudar a mostrar as regiões com mais oportunidades de fretes; disse que mais da metade dos entregadores ficam menos de uma hora por dia conectados ao app; e que possibilita a gorjeta integral aos motoboys pelos clientes. Houve aumento de 238% no valor médio da gorjeta e de 50% no percentual de pedidos com gorjeta. Sobre os EPIs, a empresa disse que tomou medidas preventivas, como: entrega sem contato, compra e entrega de álcool e máscaras semanalmente, sanitização de mochilas e motos, criação de faixas e distanciamento nas cozinhas dos restaurantes e a criação de um fundo com a Cruz Vermelha para apoiar pessoas que tem sintomas ou contraíram a Covid-19.

 

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