19/05/2014 às 23h02min - Atualizada em 19/05/2014 às 23h02min

Lula, o homem que calculava a estupidez*

Em seu realismo cínico, Lula reconhece o acerto das críticas que alvejam suas promessas

Caleb Salomão

Sobre a imbecilidade, há a acidez de Karl Kraus. Sobre estupidez, as finas ironias de Robert Musil. O polemista austríaco nascido na República Tcheca dizia que existem imbecis superficiais e imbecis profundos.  Já o escritor austríaco via uma estupidez honesta, mais ampla e de fácil percepção; e outra mais específica, pretensiosa e com ares de superioridade.

Segundo Musil, a estupidez do segundo tipo é menos uma falta de inteligência que uma abdicação espontânea desta, perante tarefas que pretende cumprir, mas que se afiguram perante ela (inteligência) inadequadas. Trata-se de "verdadeira doença de formação". Seria, de longe, a mais perigosa.

Em 2009, em entrevista à revista Piauí, o ex-presidente Lula desdenhou do hábito de ler. Disse que a leitura lhe dá sono, preferindo assistir à televisão, pois as bobagens que ela transmite lhe ajudariam a “limpar a cabeça”. Na mesma ocasião, afirmou evitar a leitura de jornais porque tal hábito lhe causava indisposições gástricas.

Agora, chama de “babaquice” as expectativas da população quanto à melhoria da mobilidade urbana, resultado esperado pelas promessas de oferta de transporte coletivo de qualidade para atender às demandas criadas pela Copa do Mundo de Futebol. Lula afirma que os brasileiros “nunca tiveram problema de andar a pé”. O brasileiro, diz o ex-presidente, “vai a pé, descalço, de bicicleta, de jumento, de qualquer coisa”. A babaquice estaria na cobrança de metrô dentro dos estádios.

O ex-presidente sabe que as críticas – da imprensa, que ele não lê, e da população, cuja opinião ele capta por meio da oralidade informativa que pratica com seus assessores – não se dirigem, especificamente, ao metrô que levaria o torcedor ao interior dos estádios. Lula sabe que as expectativas elevadas e sofisticadas sobre mobilidade urbana foram usadas por seu governo para seduzir os incautos daqui e de fora na propaganda ufanista sobre o país que faria “a melhor Copa do Mundo da história.”

Em seu realismo cínico, Lula reconhece o acerto das críticas que alvejam suas promessas – e de sua então ministra Dilma Roussef – de melhorias na mobilidade urbana, sempre necessárias, mas que seriam implementadas no empuxo investidor propiciado pela Copa do Mundo. Reconhece, mas dissimula, abdicando da compreensão honesta. Hiperboliza sua crítica aos “babacas” e concentra-as no tal metrô que entraria no estádio porque sabe que muitos de seus eleitores consideram dispensável tal luxo, como ocorre com qualquer torcedor que se dispõe apaixonadamente a assistir a um jogo de futebol.

Num caso (o desprezo pela leitura de livros e a alergia à leitura de jornais) e noutro (este, das críticas metonímicas às falhas de gestão de seu grupo político), Lula se serve de um tipo de estupidez para promover o outro.

Lula conhece o país do qual foi presidente e sabe que sua fala sobre livros, jornais e televisão ficaria bem na boca de milhões de brasileiros. São legiões os brasileiros que, como Lula, foram privados de contato com a educação na infância e cresceram sem o menor apreço pelo uso da leitura formativa e informativa como meio de superação da estupidez inata.

Lula sabe que formam legiões os que foram estupidificados pelos meios de comunicação de massa, tendo sido privados do desenvolvimento de qualquer senso crítico diante de opiniões estapafúrdias. Sabe que são milhões os que foram educados na cultura televisiva da relativização moral e cultural, onde todas as coisas têm o mesmo valor e todas as opiniões e métodos podem levar ao mesmo lugar. Seu sucesso político seria o exemplo inatacável de que sua estupidez voluntária não é, necessariamente, obstáculo ao êxito.

O animal político que habita Lula sabe que seu desprezo cínico pelo “metrô dentro do estádio” ecoará entre muitos daqueles que jamais quiseram este luxo e que se esqueceram do que de fato precisavam: melhorias nos sistemas de transporte coletivo e não apenas no período da Copa do Mundo, embora o torneio tenha sido o catalizador das promessas descumpridas.

Em ambos os casos, a estupidez pretensiosa de Lula lhe permite ofender a inteligência e o bom senso para manipular a imbecilidade superficial de muitos, que até verão certa sensatez em sua crítica, afinal, segundo pensam, somente “babacas” poderiam exigir metrô dentro dos estádios.

As tonalidades da estupidez que assola o Brasil permitem esse flutuar retórico de Lula, que passará para a história como o presidente de muitos feitos. Um deles, certamente, registrará o animal político que – marcado pela estupidez profunda de uma era em que a educação formal atingia poucos e ensejava outros tipos de formação – calculava a estupidez, sua e dos outros, como forma de provocar rasas reflexões e rápida e temporária adesão.


*Sobre o autor: Caleb Salomão vive em Vitória, no Espírito Santo. É Advogado e professor de Direito Constitucional da Faculdade de Direito de Vitória (FDV). Publicou no Brasil a obra Artigos para Amar, e escreveu outros livros também na área do direito, como o recente Constituição 1988 – 25 anos de valores e transições. Ainda este ano, irá lançar também os livros Em Busca da Legitimidade e (Des) Casando – Reflexões sobre as emoções e o direito nas separações. Acesse: www.calebsalomao.com.br


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