13/02/2020 às 14h27min - Atualizada em 13/02/2020 às 15h17min

O jogo da escolarização por Edith Rubinstein

Aqueles que não entram nesse jogo tornam-se indivíduos disfuncionais ou como diz Feuerstein: com privação cultural decorrente da dificuldade de lidar com os objetos e valores de sua própria cultura. Destacarei três queixas recorrentes que descrevem a “disfuncionalidade” da criança no contexto escolar: a) atenção e distração e b) dificuldade para a escuta, c) baixa tolerância ao esforço e frustração.

Atenção e distração

É possível compreender atenção como uma construção, sem desmerecer seu aspecto funcional orgânico.  Metaforicamente relaciono atenção enquanto função, com investimento amoroso e cuidadoso na relação com o objeto. Escolho a expressão hebraica, lassim lev - “prestar atenção” que literalmente significa “colocar o coração”. Atenção relaciona-se com a energia do investimento, a qual demanda escolha: ao investir num objeto é preciso simultaneamente “desinvestir” em outro. Essa troca não é de fácil manejo, demanda resignação e ressignificação a posteriori. As crianças que relutam sair do jogo no celular e tablet para aceitar o jogo proposto pela escolarização. Aceitação de limites também é desafiador.   É preciso suportar algo nem sempre imediatamente interessante, focar neste objeto. É comum descrever a falta de foco e a distração como patologias da aprendizagem. Cabe ao especialista em aprendizagem pesquisar na sua escuta a “distração contextualizada”, isto é: por que a distração? Quando ela está mais presente? Qual o significado do conteúdo e da atividade rejeitados para um determinado aluno? Por que a rejeição?

Dificuldade para a escuta

Manifesta-se através da limitada reciprocidade do aluno diante das solicitações acadêmicas. O aluno não escuta as instruções e as solicitações, demanda que lhe repitam. O jogo jogado nesse contexto é o da dependência. Depende-se da “tradução” do outro para executar uma ação. Essa posição impede e dificulta o desenvolvimento da maturidade emocional e intelectual.Como as crianças vivem o estar sozinho consigo mesmo? Quais os efeitos da escolarização precoce na Educação Infantil que limita a brincadeira? Por que a tolerância ao esforço é entendida como sofrimento? Como o infante busca em suas experiências anteriores energia para suportar o tempo necessário para compreender e responder? Como lidar com o não saber imediato?

Baixa tolerância ao esforço e frustração.

Na cadeia de questionamentos, relaciono outra capacidade humana: a resignação enquanto aceitação da regra e de limites. É indiscutível a desvalorização e a dificuldade para aceitação das regras e limites de modo geral na sociedade contemporânea. O discurso “tudo pode, posso tudo” está vivo e presente no processo da aprendizagem formal e informal na família e na escola. O discurso do “jeitinho” é familiar e usual não somente nas esferas públicas. Em síntese, atenção significa investir amorosamente e, simultaneamente, selecionar/focar deixando de lado outros objetos (“desinvestir”). Este movimento exige resignar-se diante do limite e do esforço que o aprendizado demanda. Como lidam com o esforço as pessoas? Como ressignificam os efeitos do esforço?

No cotidiano de muitas crianças e adolescentes, observo o excesso de atividades extracurriculares, o que não contribui para o aprendizado do foco, enquanto escolha do objeto de interesse.  Na prática, vemos alunos solicitando aos pais muitas atividades extracurriculares. Na intenção de atender aos interesses dos filhos, alguns pais têm dificuldades para colocar limites. Desse modo, o foco fica parcialmente distribuído por diversos objetos e o vínculo é superficial e frágil. Continuando na cadeia da função atenção-foco-seleção, acrescento outra função construída na relação com o outro: o estar só consigo mesmo na presença do outro.

Mas qual é a importância do aprender a ficar só consigo mesmo? O aluno bem-sucedido é aquele que consegue fazer suas lições sozinho; rever sua produção; controlar e gerenciar seu tempo; esperar e suportar a angústia do não saber; ir em busca de respostas para suas  dúvidas e conflitos. Essas ações, que representam um modo de estar no mundo, são manifestações de autonomia e autoria de pensamento que puderam ser construídas a partir do aprendiz  estar só consigo mesmo na presença do outro. Porém, este aprendizado foi construído na relação com adultos significativos. É uma construção feita a dois, pois depende de como o adulto significativo contribuiu com a sua presença na “medida certa” enquanto “educador suficientemente bom”, usando o conceito winnicottiano de mãe suficientemente boa.  A construção da autonomia é um processo que leva tempo e demanda trabalho tanto do educador quanto do aprendiz. Às vezes é o educador enquanto adulto significativo que tem, ele mesmo, dificuldade para saber manter a distância necessária na relação com o aprendiz.

O jogo da família e da escola

 Nascemos para aprender, aprendizagem permite a sobrevivência da espécie e da cultura (Pain, 1998). Porém, paradoxalmente, aprender é uma ação muito complexa que demanda do psicopedagogo: capacidade de escuta, olhar sensível, técnica apoiada teoricamente por diferentes áreas de conhecimento. Nem sempre são considerados nas análises das dificuldades de aprendizagem os seguintes aspectos: a) a complexidade do ensinar e do aprender; b) as vicissitudes pertinentes ao discurso da aprendizagem, isto é, variações e vulnerabilidades presentes no contexto educacional.

Desconsiderar os aspectos acima citados poderiam funcionar como armadilhas que explicariam parcialmente a demanda por diagnósticos fechados, pois, “se todos podem aprender”, aqueles que aprendem diferentemente (vicissitudes e variações) poderiam ser portadores de algumas condições orgânicas que impediriam o aluno de responder de forma semelhante ao grupo de seus pares. Para evitar a armadilha, caberiam novamente aqui minhas perguntas iniciais: quem aprende? O que aprende? Para que aprende? Onde aprende? Por que aprende? Como aprende? Com quem aprende?  Quem ensina? Como ensina? Por que ensina?

Não é fácil construir perguntas para aqueles que estão identificados com discursos que avalizam respostas prontas e comprovadas. Viver sob a perspectiva do paradigma da incerteza, que formula perguntas, que preconiza a existência de muitas possibilidades, é angustiante e muito trabalhoso, demanda construção e reconstrução de hipóteses a partir de análises a posteriori. Demanda um trabalho contínuo para avaliar a eficácia aparente da prática e da compreensão teórica para corrigir a pontaria quando necessário.

Finalizo levantando mais uma questão voltada para o estilo de propostas pedagógicas. “Por que uma parcela significativa de escolares não responde à proposta educacional que se preocupa em oferecer aprendizagem significativa, mais interessante e criativa que a da escola tradicional? Apesar de o modelo político-pedagógico ter como paradigmas a construção do conhecimento e do saber numa relação professor-aluno menos assimétrica demanda autonomia do aluno para gerenciar tempo e espaço os desafios acadêmicos, além de maturidade para lidar com questões abertas e dúvidas. Esse tipo de proposta pedagógica, apesar de mais aberta e interessante que a proposta tradicional, exige disciplina e auto-organização e domínio no sentido de ter-se apropriado do conhecimento. Não é suficiente conhecer que é uma regra de representação diferente do saber, o qual é uma regra de ação.

Levanto a hipótese de que disciplina e organização são habilidades que precisam ser construídas inicialmente fora dos muros da escola. Demandam aceitação de regras e limites. Provavelmente, dentro dos muros da escola, a expectativa é que a organização e a disciplina já tenham sido construídas na relação com os objetos e saberes não acadêmicos, no ambiente familiar. Porém, sabemos que essa questão é, por natureza, complexa e polêmica. Família e escola jogam o jogo do “não é minha função ensinar a organização e a disciplina”. 

Diferentemente da criança da escola moderna, o aluno da contemporaneidade tem muita voz, o que se manifesta através dos discursos: “só me interesso por aquilo que gosto e por aquilo que me será útil; rejeito aquilo que não entendo e, portanto, desgosto”. O desafio da escola contemporânea é maior do que na escola tradicional na medida em que as respostas não são únicas e não há receitas prontas. Como já foi dito, será a posteriori que se saberá dos possíveis efeitos de um ato pedagógico.

* Edith Rubinstein é pedagoga, psicopedagoga, terapeuta familiar e mestre em psicologia educacional, Coordena o Centro de Estudos Seminários de Psicopedagogia.

 

 

 

Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »