07/02/2020 às 15h47min - Atualizada em 11/02/2020 às 13h36min

Hino antiestupro criado por chilenas ecoa por 89 cidades e 13 países

A cidade é Valparaíso e o ano é 2019. Há 34 dias, as ruas do Chile estão sendo ocupadas por uma onda de protestos que pediam a renúncia do presidente Sebastian Piñera. O acontecimento, na verdade, tem raiz na crise do regime da democracia representativa que vive uma fase liberal nesta e em outras nações da América Latina e do mundo.
 
A repressão militar às manifestações teve uma rápida escalada de violência e deixou ao menos 24 mortos, mais de 200 pessoas com dano ocular por disparos de balas de borracha e cerca de 2 mil feridos.
 
Entre as demandas que se aprofundavam em outubro, estava a das mulheres. Durante as manifestações, houve diversos casos de violência contra a mulher, como estupros e outras formas de violência sexual. Sabe-se que, no mundo todo, persistem também os altos índices de feminicídio — crime de ódio baseado no gênero.
 
Para muitos, isso está ligado ao fato de sermos governados, massivamente, por homens. No mais, as raízes da violência e do machismo têm base na própria dominação patriarcal, que percorre todas as fases de formação cultural dos cidadãos contemporâneos.
 
No caso do Chile, especialmente, que tem um recente histórico político de ditadura, havia uma sensação de sufocamento por parte das cidadãs. Em meio à crise político-social, as chilenas assistiam um endurecimento da postura do governo, justificado como segurança pública.
 

Hino antiestupro

 
Foi aí que, no dia 20 de novembro, um grupo de dezenas de mulheres decidiu realizar uma performance de protesto. A ação foi orquestrada por um grupo de artistas chilenas chamado Las Tesis. Depois da primeira apresentação de Un Violador en Tu Camino (Um violador em seu caminho) não passaram sequer 48 horas até que os vídeos caíssem nas redes sociais e viralizassem.
 
O ato, que foi ganhando gradualmente a atenção da imprensa, ocorreu cinco dias antes do Dia Internacional da Eliminação da Violência Contra as Mulheres (dia 25 de novembro). Nessa data, a apresentação voltou a acontecer na capital chilena, em Santiago. As organizadoras foram as mesmas, mas, dessa vez, dezenas de mulheres mostraram interesse em se somar ao grupo.
 

Viralização

 
A coisa foi tomando maiores dimensões. Em outras cidades do país, novos grupos de mulheres se mobilizaram para recriar a performance em seus próprios formatos, isto é, com diferentes figurinos e tamanhos. Muitos grupos fizeram um flash mob, exibição que une canto e dança, como uma espécie de marcha de protesto, entoando: “E a culpa não era  minha, nem de onde estava, nem de como me vestia”.
 

Cultura do estupro

 
“O patriarcado é um juiz, que nos julga por nascer e nosso castigo é a violência que você não vê”.  O canto criado pelo coletivo de artistas denunciava alguns dos braços e consequências do patriarcado, como o machismo, o feminicídio, a impunidade de assassinos, a desaparição de mulheres e a cultura do estupro. Elas explicam na letra, entre outras coisas, a culpabilização da vítima, que, muitas vezes, é desacreditada por seus trajes.
 
Ou seja, o julgamento moral sobre o corpo e atitudes da mulher faz com que muitas mulheres tenham seus casos mal resolvidos, tanto por terem seus discursos distorcidos por crenças como “mulher direita não usa batom vermelho” quanto pelo fato de haver dificuldades para encontrar seus violadores, que na maior parte das vezes saem impunes. Nesse caminho, a atitude correta, de incriminar e penalizar os culpados, acaba ficando em segundo plano.
 
Antes mesmo de o crime ser executado, é a própria mentalidade presente na sociedade que contribui para que o cenário perpetue a violência de gênero. Há muitas mulheres violentadas que temem denunciar seus violadores para não sofrerem um constrangimento maior que o próprio crime de violência sexual. Ou seja, é um ciclo de violência que deixa a mulher refém e isolada. Para falar sobre isso que as artistas do Las Tesis decidiram ir para as ruas. 
 

Internacionalização

 
O hino foi, ao longo dos meses, se tornando um fenômeno global ao ser cantado por grupos de mulheres no México, Espanha, França, Itália, Colômbia, Alemanha, Turquia, Reino Unido, Peru, Argentina, Chipre, Uruguai, Israel, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Grécia, Islândia, Japão, Quênia, Líbano, Nicarágua, Panamá, República Dominicana, Suíça, Tunísia, Venezuela, Paraguai, Brasil e Índia.
 
Em janeiro deste ano, cerca de 60 mulheres reproduziram a coreografia de Un violador en el camino em frente ao tribunal de Manhattan, nos Estados Unidos, enquanto ocorria a sessão de julgamento do produtor de cinema Harvey Weinstein, acusado por cerca de 90 mulheres — entre elas a atriz Angelina Jolie — de assédio, agressão sexual e estupro. 
 

Feminismo para fora dos muros acadêmicos

 
O coletivo Las Tesis também passou a divulgar em sua conta do Instagram um chamado para que novas convocatórias da performance aconteçam. Elas sugerem que seriam incorporadas também ações com língua de sinais e outras adaptações de inclusão.
 
A ideia de performar esse hino era, justamente, de levar as teorias de feministas presentes na academia para diversos grupos de pessoas. Por isso, a ação se deu nas ruas e houve a divulgação por meio de vídeos. Elas contam que o primeiro livro lido para o desenvolvimento do projeto foi O Calibã e a Bruxa, da autora Silvia Federici.
 

Liberal e de direita: o governo de Piñera

 
A ação dos  cabineiros — policiais chilenos — foi denunciada por organizações como a Anistia Internacional, a Human Rights Watch e a Organização das Nações Unidas (ONU). Outros incidentes graves como o sequestro de ativistas foram denunciados e o clima era de preocupação.
 
Para frear a expressiva mobilização política dos cidadãos, o presidente Piñera, que não exitou em declarar guerra àqueles que estivessem contra ele, tomou medidas punitivistas, aprovando a lei antissaques e antibarricadas, por exemplo. Além disso, há uma falta de clareza que rodeia o país, nada se sabe sobre o que será do futuro da sociedade chilena.
 
Notícias sobre os incidentes são duvidosas e há muitos casos de violência policial que não foram devidamente investigados e punidos, o que se soma a mandados de prisão em massa e relatos de casos de perseguição política.
 
Após muita pressão por parte de classes políticas chilenas e das próprias manifestações, uma constituinte estava prevista para ocorrer no dia 26 de abril. Contudo, a ala mais conservadora e herdeira da “linha Pinochet”, que está ao lado de Piñera, não está disposta a formar uma nova Constituição para a democracia chilena.
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