24/07/2019 às 12h33min - Atualizada em 25/07/2019 às 16h33min

O que é a arquitetura parasita, que vem ganhando as grandes cidades do mundo?

O designer espanhol Fernando Abellanas sempre acreditou que deveria encontrar uma solução à falta de espaço nas grandes cidades mundiais. No começo de 2017, enfim, ele chegou a ela: criou um escritório localizado literalmente abaixo de uma estrada em Valência, na Espanha. 

Com um piso suspenso feito com tábuas de madeira e tubos de metal, o estúdio revolucionário utiliza o concreto que ancora a rodovia como telhado, enquanto os pilares são as paredes.

A estrutura ainda tira vantagem das vigas abaixo de uma ponte e, assim, pode usá-las como uma base para apoiar prateleiras, mesas ou cadeiras. Medindo 2,2 metros por 2,2 metros, o espaço todo compreende uma cadeira, algumas fotos, o portfólio de Abellanas e uma mesa. Demorou uma semana para ficar pronto, segundo o jornal espanhol El País.

"Eu estou interessado em repensar o que está estabelecido, em analisar esses tipos de espaço e investigar seus possíveis usos alternativos", afirmou ele ao periódico. 

O trabalho de Abellanas é ainda mais abstrato em seu conceito do que como uma solução concreta à questão das moradias - ao invés de um convite para as pessoas pensarem no uso do espaço, como ele diz. Mas o designer espanhol não está sozinho: de Paris até a Tailândia, das cadeiras da faculdade de arquitetura às ruas, mentes criativas estão usando a ideia de "arquitetura parasita" de formas cada vez mais criativas e práticas para ajudar a reconsiderar o espaço urbano.

A arquitetura parasita consiste basicamente em uma construção que é atada a uma grande estrutura já existente. Ela se desenvolveu em reação à necessidade de resolver problemas urbanos comuns, como o alto valor dos aluguéis e a falta de espaço, e mesmo de promover áreas de respiro aos intensos congestionamentos das grandes cidades.

A ideia surgiu em 2015 com o arquiteto britânico James Furzer, que começou a criar "casulos parasitas" com a ideia de promover soluções de moradia baratas e acessíveis. Suas criações eram uma resposta ao crescimento de "arquitetura hostil" nas cidades - um controverso tipo de design cuja intenção era proibir as pessoas de usarem espaços públicos de formas distintas das legitimadas socialmente. Exemplos dela incluem bancos que são preenchidos com buracos ou espetos de concreto para impedir que moradores de rua os usem para dormir.

Com cerca de dois por dois metros, os casulos de Furzer têm "o fundamental de um abrigo": calor, proteção do exterior e conforto. Os custos entre US$ 5,4 mil e US$ 6,7 mil para construir cada um são possíveis porque se valem de materiais recicláveis. Eles são desenhados para ficarem fixos em edifícios sólidos - idealmente, em lugares estatais, como armazéns ou estacionamentos.

Furzer contou ao The Guardian que mantém conversas com um investidor privado para, juntos, desenvolverem um esquema que garanta que os casulos possam ser construídos e instalados com custos mínimos. "Eu não vislumbro que esse tipo de arquitetura esteja disponível nos próximos anos, mas está se desenvolvendo em segundo plano para se tornar um produto acessível", afirmou.

Em Paris, na França, edifícios históricos que não podem ser modificados por causa das leis de preservação do país são outro desafio. A arquiteta Stéphane Malka respondeu preenchendo os espaços entre essas estruturas feitas de vidro, aço e madeira e que servem como moradias baratas. Uma ideia similar se tornou realidade em Sheffield, na Inglaterra, onde um prédio da era vitoriana foi revitalizado em 2012 com a adição de um teto parasita, onde hoje funcionam um bar e um restaurante. 

Os idealizadores do conceito foram os arquitetos holandeses Merel Pit, Karel Steller e Gerjan Streng, que escreveram um artigo construindo uma imagem de cidade como um corpo vivo, composto de sistemas físico e mental. Segundo eles, ocupando áreas vazias das grandes cidades, a arquitetura parasita parece um corpo estranho que, ao gerar desconforto, revela um potencial revolucionário. 

 
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