25/07/2019 às 15h09min - Atualizada em 25/07/2019 às 16h33min

Como funcionam as estradas sem limite de velocidade na Alemanha e na Inglaterra

Na maioria dos países do mundo, um cidadão que respeita as leis jamais considera a possibilidade de dirigir na mais alta velocidade que seu carro permitir por uma estrada. E mesmo que alguns carros disponíveis no mercado possam exceder os 320 km/h, há poucos lugares no planeta em que eles podem chegar, de fato, aos seus limites.

Frustrações sobre as restrições de velocidade estão sendo discutidas agora no Território do Norte da Austrália: com uma vasta área de 1,3 milhão de quilômetros quadrados e uma população de apenas 200 mil pessoas, a região se tornou uma das últimas do mundo a adotar limites legais de velocidade, em 2007. No entanto, as regras estão sendo revistas agora pelo novo governo de centro-direita, que encomendou um estudo para examinar se a volta aos antigos moldes faz sentido. 

 

Os dois lados da questão estão distribuídos entre os partidos políticos, porque o antigo governo de centro-esquerda do Território do Norte australiano, se impôs os limites de velocidade e arquivou todos os pedidos de revisão há seis anos, também se opõe à ideia. O mesmo ocorre no Brasil, onde o governo do presidente Jair Bolsonaro, de direita, quer retirar radares das estradas federais e aumentar o limite de pontos para que a carteira de habilitação seja cassada.

Há lugares no mundo, no entanto, que um cidadão pode acelerar quanto quiser sem cometer nenhuma infração, como rodovias na Alemanha e na Inglaterra.

O sistema alemão de grandes estradas é famoso justamente por sua ausência de limites de velocidade: embora cerca de metade dos 13 mil quilômetros de Autobahn seja regulado, o restante tem apenas uma recomendação de não ultrapassar os 130 km/h e uma imposição de não trafegar a menos do que 60 km/h - para que veículos lentos fiquem fora das rodovias.

As estradas sem limites de velocidade atraem pessoas do mundo todo que querem experimentar a sensação de pisar no acelerador, mas a liberação não acontece sem riscos - e não é todo mundo que acha que as rodovias alemãs devem permanecer abertas. Nos últimos anos, a União Europeia inclusive pediu ao país que imponha limites onde não há, argumentando que a mudança não apenas melhoraria a segurança como reduziria as emissões de carbono.

A ONG Verkehrsclub Deutschland também pede insistentemente que as estradas alemãs sejam reguladas, afirmando que a lei diminuiria o número de mortes e ferimentos, na casa das centenas anualmente. Por outro lado, os que apoiam a ausência de limites comparam os dados de segurança no trânsito da Alemanha com os de países da Europa que possuem estradas regulamentadas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a partir de um relatório de 2007, o número de fatalidades nas estradas alemãs é de seis para cada 100 mil pessoas - na Áustria, a proporção é de 8,3 para cada 100 mil, na França é de 7,5 e na Suíça, 4,9.

A Autobahn alemã tem uma polícia própria (Autobahnpolizei) que realiza treinamentos intensos, usando simuladores de direção em alta velocidade para ensinar aos novos agentes como trafegar pelas rodovias e punir os infratores, além de administrar postos de controle de abastecimento, pedágios e a fiscalização de fronteiras. A Autobahnpolizei possui automóveis e motos da BMW, da Mercedes-Benz e da Audi - algumas das viaturas não são caracterizadas. O sistema Autobahn também foi projetado com a segurança em mente: suas estradas foram construídas para serem mais largas do que as rodovias típicas - às vezes duas vezes maiores do que as pistas normais da Europa -, fazendo delas mais aptas a receber um grande volume de carros em alta velocidade.

Além da Autobahn, turistas e aventureiros do mundo todo também vão à Isle of Man, localizada nas águas do Mar Irlandês, entre a Inglaterra e a Irlanda, para dirigir na velocidade que quiserem em meio a montanhas de rochas, penhascos e praias isoladas. Assim como na Alemanha, há debates sobre a falta de regulamentação nas rodovias locais, mas desde 2006 o ímpeto de mudanças nas leis diminui. Naquele ano, um plebiscito foi realizado para consultar a população sobre a imposição de velocidades, e o "não" teve um grande apoio da população local.

Um fator que contribui para a dependência da Coroa Britânica em relação aos limites de velocidade é a longa história da Isle of Man com o automobilismo. Em 1904, o governador local decidiu usar as estradas públicas para corridas de carro na ilha, em parte devido às leis britânicas que restringiam a circulação de automóveis a 32 km/h. Ele viu ali um jeito de promover a ilha, e mais de um século depois sua decisão ainda tem efeito turístico.

A Isle of Man TT, um evento anual de motocicletas que já foi chamado de "a corrida mais perigosa do mundo", atrai milhares de motoqueiros do mundo todo interessados em assistir a uma corrida em torno de um circuito de 57 km de rodovias públicas - a competição já resultou em 150 mortes desde a primeira edição, em 1907. Durante o percurso montanhoso, as velocidades podem chegar a 320 km/h. Outra corrida do mundo do motociclismo é o Manx Grand Prix, que acontece em cada agosto celebrando o aniversário da ilha.

A noção de limitar as velocidades dos carros por meio de leis se originou na Grã-Bretanha no século 19. Em 1865, foi imposto aos veículos de tração animal um limite de 3,2 km/h nas cidades e de 6,4 km/ nas conexões nacionais. No entanto, em algumas áreas do mundo a regulamentação é recente, caso do estado de Montana, nos EUA, que só começou a regularizar as velocidades em 1999.

No Território do Norte da Austrália não havia limite legal de velocidade até 2007. Desde então, rodovias grandes, como a Stuart Highway, limitaram a circulação a 130 km/h, mas líderes políticos estão novamente pedindo um fim das regras, ao menos que as velocidades permitidas sejam aumentadas. Apesar das restrições, tanto Montana quanto a região australiana são consideradas até hoje uma das rotas mais rápidas para se locomover de carro. 

O máximo legal de velocidade no mundo não ultrapassa os 140 km/h, caso das estradas da Polônia e da Bulgária. No Texas, nos EUA, uma rodovia entre as cidades de Austin e Santo Antonio se tornou a mais rápida do país em 2013, quando as autoridades locais fixaram o limite em 136 km/h (85 milhas). 

 
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