14/03/2014 às 21h01min - Atualizada em 14/03/2014 às 21h01min

Futuro responsável: o desafio dos novos líderes

Depois de duas décadas perdidas administrando a dívida externa, o Brasil adentrou no plano real que congelou o dólar, manteve elevada a taxa de juros, reduziu a inflação, exportou empregos, fragilizou a indústria, que até então fora o polo de evolução técnica e da mão de obra

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Benedicto Ismael Camargo Dutra*

Organizar a economia do país de forma equilibrada não é tarefa fácil devido à limitação de recursos, despreparo da mão de obra, superpopulação, alterações climáticas. Mas no Brasil isso fica muito mais complicado com as manipulações especulativas praticadas sobre o câmbio, cujo volume, conforme José Paulo Kupfer, colunista de Economia do jornal O Estado de S.Paulo, supera em mais de quatro vezes as operações reais.

Uma boa lição a aprender com a China seria o manejo do dinheiro e o sistema cambial. Lá não se permite especulação com a moeda. As reservas são criteriosamente utilizadas. Não há dependência de capital externo. As populações pobres do campo ficarão entusiasmadas com alguma melhora ao serem incorporadas à produção industrial, mas no futuro, apesar do PIB elevado, é provável um aumento da infelicidade geral num sistema de vida rígido de rotinas massacrantes.

Enquanto isso, no resto do mundo uma minoria vai concentrando a riqueza cada vez mais. No entanto, a grande massa se vê constrangida a possibilidades de ganhos que vão se estreitando, provocando o descenso da chamada classe média, o que reduz suas oportunidades de ganho, sendo essa a grande desigualdade. Nos Estados Unidos, isso era contornado com crédito barato, mas com o acúmulo de dívidas e redução nos ganhos o sistema implodiu.

Há uma distorção mundial na utilização da mão de obra, nas taxas de juros e de câmbio. Com nova cara o velho mercantilismo impera nas relações e na maximização dos ganhos, sem que se note preocupação com o aumento da miséria. É um comportamento egoístico que se reveste de uma implacável luta pela sobrevivência e ampliação do poder. Vale tudo: enganar, subfaturar, sonegar, corromper. Falta responsabilidade com o amanhã desde longa data. O que o futuro nos reserva com todo esse descuido com a qualidade humana e de vida? Um problema essencial para as nações ocidentais será promover o restabelecimento do equilíbrio da produção, consumo e contas pessoais e do Estado, frente à maior participação da Ásia na produção industrial.

Depois de duas décadas perdidas administrando a dívida externa, o Brasil adentrou no plano real que congelou o dólar, manteve elevada a taxa de juros, reduziu a inflação, exportou empregos, fragilizou a indústria, que até então fora o polo de evolução técnica e da mão de obra. Além disso, os governantes não conseguiram administrar as finanças com equilíbrio, não fortaleceram a infraestrutura e permitiram o desperdício do dinheiro. Houve contenção da inflação, mas o preço foi alto em termos do futuro.

Equilibrar as contas é uma tarefa difícil com tantas variáveis externas e internas, mas o fundamental não tem sido aplicado: planejar os gastos com eficiência, evitar os déficits e desperdícios, acabar com esse desmando, o que para nós resulta em custos três vezes superiores.

Produzir alimentos deveria ser um trunfo no mundo superpovoado. No entanto faltou consistência e melhor planejamento na produção e seu escoamento. O sucesso na exportação de primários elevou a reserva, mas amoleceu a fibra. Descuidou-se do câmbio e da indústria. O declínio na indústria de autopeças é bom exemplo entre tantos outros. Deve-se considerar também que a agropecuária e a industrialização não podem ser feitas com a destruição da natureza, sob pena de inviabilizar as condições de vida.

Agravamos o descuido no que se refere ao bom preparo da população. Permitimos muita precariedade nas moradias e na mobilidade urbana, na falta de saneamento, no declínio na qualidade das famílias e na educação. Descuidamos da formação técnica dos jovens para que pudessem vir a ser incluídos na moderna sociedade do trabalho. Estamos enfrentando a civilização do medo e insegurança. A violência se esparrama pelas cidades com assaltos e atos de vandalismo. As pessoas se iludem com o engodo de alguma melhora no acesso a bens duráveis, mas falta uma perspectiva de melhor futuro duradouro.

A ideia de melhor distribuição dos ganhos das empresas aos trabalhadores deveria ser pensada, com o governo dando sua contribuição, reduzindo um pouco a carga tributária. Seria excelente para aumentar o PIB do Brasil, contribuindo também para melhorar a participação nos resultados, dinamizando o consumo, sem incentivar o aumento do endividamento da população.

Necessitamos de líderes empenhados com o progresso do país e sua população. Faltam rumos e um projeto de nação que promova a evolução integral. Ficamos fornecendo matéria-prima e alimentos, barateando os importados, enquanto a indústria submerge. Permanecemos sem autossuficiência financeira. Se continuarmos desse jeito poderemos cair de novo na armadilha de necessitar de empréstimos para cobrir o défict. E agora? Qual seria a receita para evitar uma decadência ainda maior? Que o digam nossos ilustres candidatos.

* Benedicto Ismael Camargo Dutra é graduado pela Faculdade de Economia e Administração da USP, e associado ao Rotary Club São Paulo. Realiza palestras sobre temas ligados à qualidade de vida. É também coordenador dos sites www.vidaeaprendizado.com.br e www.library.com.br, e autor dos livros “ Conversando com o homem sábio”, “Nola – o manuscrito que abalou o mundo”, “O segredo de Darwin”, e “2012...e depois?”. E-mail: bicdutra@library.com.br; Twitter: @bidutra7


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