07/05/2019 às 14h27min - Atualizada em 09/05/2019 às 20h46min

Depois de duas décadas abandonado, prédio de Pablo Escobar em Medellín é derrubado pela prefeitura

Milhares de pessoas assistiram a demolição do edifício Mónaco, antiga casa do narcotraficante colombiano Pablo Escobar, em Medellín, no final do mês passado. Quem não esteve in loco no bairro de Santa María de los Ángeles, onde o prédio ficava, pode ver pelas imagens da TV, que transmitiram todo o processo. Nas ruas, uma multidão celebrou o tempo em que a imponente construção implodia e se transformava em um monte de escombros e pó.

No terreno do edifício, a cidade planeja construir um parque comemorativo para lembrar as vítimas dos crimes relacionados ao seu cartel de drogas. "Hoje o prédio cai e começa a esperança", disse o presidente colombiano, Iván Duque, em uma declaração ao país pela televisão. "É impossível mudar o passado, mas é possível construir um presente e um futuro melhores", continuou.

Escobar viveu no edifício Mónaco durante anos até 1988, quando um dos seus rivais detonou um carro-bomba na portaria. A família Escobar abandonou a estrutura, que ficou abandonada desde então. No entanto, há mais de 25 anos da morte do narcotraficante, o prédio de seis andares se mantinha em um debate acalorado: a prefeitura da cidade pesava o potencial atrativo turístico do lugar em relação à necessidade de deixar para trás um passado doloroso.

O legado do "capo" das drogas escureceu Medellín, em parte por causa das novas produções cinematográficas e séries de TV, como Narcos, da Netflix, e El Patrón del Mal, de um canal colombiano, além de livros que contaram a história da vida de Escobar -- em que se pode ler tanto glorificações do seu legado como críticas exageradas sobre sua personalidade.

Depois de sua morte, Escobar se converteu em algo como um "herói popular", devido ao seu meteórico acesso da classe trabalhadora colombiana a um dos homens mais ricos do mundo, assim como sua generosidade com algumas pessoas, ao construir casas e hospitais para os pobres.

Medellín, chamada de "cidade mais perigosa do mundo" pela revista estadunidense Time, em 1988, viu a queda dos crimes violentos desde sua morte, em 1993, e hoje se converteu em um grande destino turístico. Alguns capitalizaram a história local como um relato da vida dos grandes narcotraficantes colombianos. Os guias de turistas -- incluindo o ex-chefe dos sicários de Escobar, John Jairo Velásquez, conhecido como Popeye -- levam os clientes em passeios por lugares antigos frequentados pelo cartel. Vendedores de rua comercializam camisetas com o rosto do narcotraficante.

Apesar disso, a narrativa para os turistas não menciona o impacto de sua ascensão ao poder na ordem dos crimes que cometeu e dos sequestros e assassinatos que muitos sofreram por se "atreverem a desafiar" o cartel. Federico Gutiérrez, prefeito de Medellín, disse ao jornal El Colombiano antes da demolição do prédio que "derrubar a estrutura é um passo simbólico importante para a cidade e o país". Sites para imobiliárias chegaram a registrar altas nos preços e nas procuras pelas casas ao redor do prédio depois que a prefeitura decidiu por colocar o Mónaco abaixo.

Disse ainda que mudar a narrativa, ao enfatizar histórias de vítimas em vez de glorificar o passado de atividades ilegais de Escobar e de outros como ele, era essencial para reclamar a história nacional da Colômbia. "A gente se preocupa com a maneira como narramos, e deixamos de narrar, nossa própria história. Na maioria dos relatos, os vitimados são os protagonistas, e isso tem consequências a longo prazo, porque acaba por validar a ilegalidade", continuou Gutiérrez.

A cidade consultou vizinhos, acadêmicos, artistas locais e os familiares das vítimas para desenhar o parque em homenagem aos mortos. Para o prefeito, demolir o edifício não significar apagar sua história. "Necessitamos que nossos jovens conheçam o que aconteceu aqui e que tudo lhes diga que 'nada daquilo acontecerá novamente'", finalizou Gutiérrez.

Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »