19/05/2012 às 01h11min - Atualizada em 19/05/2012 às 01h11min

As Troianas – Vozes da Guerra volta em cartaz no Teatro do Núcleo Experimental

A peça integra a Trilogia da Guerra, composta também por Casa Cabul e Bichado. Com direção de Zé Henrique de Paula, o espetáculo tem poucas falas e faz paralelo entre Guerra de Troia e Segunda Guerra Mundial. Em questão, a privação de direitos, medo, dor e esperança. O texto é transmitido por ações e pela trilha sonora, composta por músicas folclóricas iídiche e gregas, entre outras

Arteplural - foto: Bibi Piragibe

 

De espírito inquieto, o criador Zé Henrique de Paula costuma ir fundo em suas pesquisas. Para traçar o paralelo entre a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) e a Guerra de Troia (1.250 a.C), precisava ter a “vivência” ou, como se diz no teatro, fazer seu laboratório perto de onde aconteceram os horrores da guerra na época do Nazismo. Há pouco mais de dois anos, visitou Auschwitz e Birkenau, na Polônia, dois dos principais e mais mortíferos campos de concentração e extermínio do Terceiro Reich e conheceu as ruínas da cidade de Tróia (perto de Istambul). Assim montou AS TROIANAS, que volta em cartaz no Teatro do Núcleo Experimental, na rua Barra Funda, dia 24 de maio, às 21 horas. Grátis.

A encenação – onde as sobreviventes troianas simbolizam judias arrasadas pelo horror do holocausto - tem o frescor de agora ser falada em português (na estreia o pouco texto era dito em alemão), ter a atriz Patrícia Pichamone no elenco e ter entrada franca. “A viagem foi fundamental ao grupo, uma vez que a peça é quase documental no retrato que faz da chegada de um lote de prisioneiras ao campo”, lembra Zé Henrique. A peça volta depois de estrear no Sesc Paulista e cumprir temporadas no Instituto Cultural Capobianco, na Funarte e no Teatro Sergio Cardoso.

Livre adaptação do texto de Eurípides, As Troianas – Vozes da Guerra resgata a história das sobreviventes do conflito de Troia para levantar alguns questionamentos inerentes a qualquer guerra: o que se passa dentro de um campo de concentração? Como é ter a privação quase que completa de seus direitos? Como são tratadas essas pessoas? Existe esperança numa situação como essa?

Ao término da Guerra – travada entre Troia e Esparta devido ao amor de seus governantes pela mesma mulher –, Troia, a cidade perdedora, foi aniquilada e todos os homens, mortos. As mulheres sobreviventes foram aprisionadas e escravizadas pelo inimigo. A partir do relato dessas personagens, Eurípides conseguiu mostrar uma visão feminina sobre a guerra: Hécuba, rainha de Troia, é a protetora de todas, a mais velha. A profetisa Cassandra, sua filha, tem delírios sobre os rumos da batalha. Andrômaca esconde seu filho, Astíanax, para que ele não seja morto pelos soldados. Helena, causadora do conflito, disfarça-se de troiana para não ser descoberta por Menelau, seu marido, rei de Esparta. Apesar de terem histórias diferentes, elas estão juntas pelo mesmo motivo: a sobrevivência.

“Enquanto aprofundávamos a pesquisa, descobrimos diversos paralelos entre gregos e alemães, troianos e judeus”, explica Zé Henrique, o diretor da montagem. Essas aproximações acabaram definindo a ambientação da peça e a proposta como um todo, ou seja, fazer com que o texto se passe em um campo de concentração da Segunda Guerra Mundial. “É um modo de universalizar a história, que não se restringe a gregos ou alemães”, afirma o diretor.

Mesmo escrita há mais de 2500 anos, o enredo mantém sua atualidade, já que os sofrimentos da guerra sempre foram os mesmos. Revisitar a obra de Eurípides é dar uma vez mais a palavra às vítimas de guerra e propor um novo olhar aos campos de refugiados. Para Zé Henrique, “o local é Troia, mas poderia ser a Alemanha nazista, a Europa dos guetos e dos campos de concentração, das casas deixadas às pressas, das famílias desfeitas pela fúria do preconceito e da intolerância”.

 

Teatro sem fala

Livre adaptação do texto de Eurípides, a peça apresenta uma proposta inovadora: “Nossa meta foi a de ir secando o texto até que ele não existisse mais. Nenhuma das mulheres da peça fala, a não ser Helena de Troia. Todo o sentido do texto foi gradativamente sendo substituído por ações físicas e canções de diferentes regiões do globo: Croácia, Rússia, Japão, Grécia, Irlanda, França, Israel etc. Todos povos que estão ou já estiveram em situação de guerra ou refugiados”, explica Zé Henrique.

Como resultado desse trabalho, as personagens femininas não falam, somente cantam. Já os homens, esses sim falam, mas em alemão. “As mulheres estão em estado de submissão, por isso também não têm voz. No texto de Eurípides, são as troianas, cujos maridos foram massacrados pelo exército grego. O autor fala, assim, sobre a violência e arbitrariedade da guerra e o vazio deixado por ela”, explica o diretor. Falar em alemão foi um modo de tornar essas diferenças explícitas, mas sem situar o texto como elemento essencial de compreensão.

O processo de pesquisa se iniciou em 2008. Durante oito meses, o grupo preparou as cenas com o texto, para compreender seu funcionamento no espaço e no corpo dos atores. “Depois, secamos o texto até que ele sumisse e só restassem as ações. São elas e a relação entre as personagens que definem o que está acontecendo, substituindo e sintetizando as falas”, afirma Zé Henrique. Para os homens, que falam em alemão, um treinamento especial na língua foi preparado, para garantir fluência e intimidade com o texto.

“Existe um único momento de ‘fala’. A peça tem um prólogo, uma conversa entre Atena e Posseidon para decidir o destino dos gregos e troianos”, confidencia o diretor. A cena – com os atores convidados Patricia Pichamone e Sergio Mastropasqua – é apresentada ao público em uma projeção, como um filme de época, também em alemão, mas com legendas em português. “O filme foi idealizado como uma projeção de treinamento realizada para os alemães dentro do campo”, afirma.

 

A trilha sonora

Uma vez que foram alijadas dos direitos mais elementares pelos seus opressores, as mulheres se expressam através de canções, afirmando sua identidade como povo, resistindo na manutenção de suas tradições, lembrando os bons momentos que passaram junto à família separada ou dizimada, rendendo homenagem a seus entes queridos e reafirmando a saudade de sua terra natal.

“Trata-se de mulheres troianas, transformadas em judias e que cantam canções tradicionais de alguns dos povos que foram assolados por guerras nos séculos XX e XXI, buscando trazer a universalidade da situação do oprimido no meio da bestialidade que é a guerra”, afirma Fernanda Maia, diretora musical. Com esta montagem, o Núcleo Experimental consolida sua pesquisa de linguagem na união de música e teatro, aproximando a fala e o canto, propondo alternativas ao tradicional teatro musical como fez em trabalhos anteriores como Senhora dos Afogados, R&J e Mojo.

As músicas que compõem a peça são Danny Boy (canção irlandesa); O Haralambis (grega); Maslenitsa (russa); A Sto Cemo (servo-croata); Beau Soir (francesa); Oyfn Pripetchik (canção judaica em iídiche); Furu Sato (japonesa); Durme, Durme (canção de ninar judaica em ladino) e Wenn Ich Ein Vöglein Wär (alemã). “O espetáculo propõe uma rima poética entre concepção visual e música, entre a estética que figura um campo em Auschwitz e os sons que prenunciam os desastres humanos de seu tempo. A rima se concretiza pela dor”, explica o diretor Zé Henrique.

 

Ambientação e making of

Cenografia, figurinos e objetos de cena são combinados para criar uma ambientação fiel à realidade. O principal elemento cenográfico é uma réplica de um vagão de um trem que era utilizado para transportar os judeus para os campos de concentração. “Nós procuramos objetos os mais verdadeiros possíveis e também figurinos que complementassem a sensação de realidade, para que a plateia se sinta dentro do campo de concentração com essas mulheres”, conta o diretor.

Para garantir a sensação de realidade para o público, a própria equipe buscou uma vivência do tema pesquisado. Em maio, viajam a Auschwitz e alguns outros campos de concentração, além das ruínas de Troia. “Durante a viagem, vamos captar imagens que farão parte de um pequeno making of que estamos editando. Ele será exibido na entrada do espaço, antes do início do espetáculo”, afirma Zé Henrique. Também farão parte do vídeo entrevistas realizadas por alguns atores com judeus que sobreviveram aos campos de concentração e vivem atualmente no Brasil.

 

AS TROIANASVozes da GuerraDe 24 de maio a 11 de junho. Texto – livremente adaptado de As Troianas, Eurípides. Direção – Zé Henrique de Paula. Direção musical e preparação vocal – Fernanda Maia. Assistência de direção – Caroline Fioratti. Elenco – Inês Aranha, Norma Gabriel, Patricia Pichamone, Cy Teixeira, João Pedro de Almeida Teixeira, Alexandre Meirelles, Fábio Redkowicz, Léo Bertero, André Dallan, Bibi Piragibe, Claudia Miranda, Gabriela Germano, Luciana Ramanzini, Marcella Piccin, Patrícia Vieira. Cenografia e figurinos – Zé Henrique de Paula. Iluminação – Fran Barros - Produção – Firma de Teatro (Sergio Mastropasqua e Claudia Miranda). Making off: Direção - Caroline Fioratti - Montagem - Leo Bertero. Duração - 75 minutos. Capacidade – 50 lugares. Temporada – sextas, sábados e segundas às 21 horas e domingos às 19h. Recomendado para maiores de 16 anos. Grátis. No Teatro do Núcleo Experimental, na Rua Barra Funda, 637.


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