28/03/2019 às 20h09min - Atualizada em 28/03/2019 às 20h09min

Ibovespa sobe 2,5% e dólar vai à mínima após falas de Bolsonaro, Maia e Guedes

Índice ganha força no início da tarde após reunião entre Maia e Guedes e demonstração de "trégua" na relação entre Executivo e Legislativo

Redação

Depois da derrocada de 3,57% da véspera e de atingir o menor patamar desde 7 de janeiro, o Ibovespa engatou uma recuperação nesta quinta-feira (28) com um clima de trégua na política. Os ganhos são intensificados pelas falas de Jair Bolsonaro buscando adotar um tom mais conciliador com Rodrigo Maia, além da declaração de Onyx Lorenzoni de que o relator da CCJ pode ser definido hoje.

Às 15h12 (horário de Brasília), o índice tinha alta de 2,64%, aos 94.326 pontos, enquanto o dólar comercial revertia os ganhos, recuando 0,82%, cotado o R$ 3,9222 na venda (mínima do dia), após chegar a superar os R$ 4 mais cedo.

O dólar futuro com vencimento em abril, por sua vez, recua 1,93%, a R$ 3,916. A diferença do movimento ante do preço à vista da moeda se dá porque no after market de ontem o futuro subiu muito mais, e hoje corrige o movimento.

Apesar dos ganhos, a alta do benchmark da bolsa ainda não é suficiente para reverter as perdas depois dos pregões de forte queda com o mercado repercutindo negativamente as trocas de farpas entre o presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara Rodrigo Maia, além da fala do ministro da Economia Paulo Guedes de que não tem "apego ao cargo" caso a sua agenda de reformas não avance.

Já nesta manhã, Bolsonaro buscou adotar um tom mais conciliador e afirmou que o problema com Maia foi uma "chuva de verão" e que está aberto ao diálogo. Além disso, ele reforçou a ideia da importância da Reforma da Previdência não só para o governo, mas para o Brasil.

Enquanto isso, após almoço com Maia, Guedes afirmou que tem recebido apoio do presidente da Câmara em suas reuniões com parlamentares e que todos estão empenhados com a reforma. "Há acordo no governo para mais Brasil, menos Brasília", disse o ministro.

Maia, por sua vez, disse que receberá Guedes na próxima semana e que ele poderá mostrar os benefícios da reforma para os brasileiros. Segundo ele, não existem mais farpas e na próxima semana serão retomados "com força" os debates para a Previdência.

A bolsa deu ainda mais uma arrancada por volta das 15h, após o Ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, afirmar a jornalistas que "se Deus quiser, vamos ter relator da CCJ hoje", sinalizando um esforço para que a reforma da Previdência comece a andar no Congresso.

Enquanto isso, lá fora, os temores de desaceleração global seguem levando à cautela nos mercados. O mercado digere os dados do PIB dos EUA, que subiu a uma taxa anualizada de 2,2% no quarto trimestre de 2018, levemente abaixo dos 2,3% esperados pelo mercado, de acordo com projeção da Bloomberg. Contudo, há um mês, o órgão havia estimado avanço maior do PIB do quarto trimestre, de 2,6%. 

Os gastos de consumidores, de governos locais e de empresas foram revisados para baixo, enquanto o comércio exterior teve um impacto negativo ligeiramente maior no crescimento do que na primeira estimativa. Assim, os temores de uma desaceleração da economia global seguem no radar. 

Já entre as notícias que repercutem positivamente no mercado, está a nova rodada de negociações comerciais entre Estados Unidos e China. Em Pequim, uma delegação americana vai retomar negociações comerciais com autoridades chinesas durante o jantar nesta quinta, segundo o Ministério de Comércio chinês.

O porta-voz do ministério, Gao Feng, disse mais cedo que EUA e China avançaram em rodadas anteriores, mas ainda têm “muito trabalho a fazer”. Há relatos de que a China teria apresentado aos EUA propostas inéditas para uma série de questões, incluindo a de transferência forçada de tecnologia.

No começo de abril, possivelmente já na próxima semana, o diálogo sino-americano irá se transferir para Washington. Negociadores de ambos os lados disseram esperar que a nova rodada de discussões leve a um acordo comercial entre EUA e China até o fim de abril.

No mercado de câmbio, a libra recua após parlamento do Reino Unido rejeitar outras opções para o Brexit, enquanto o dólar tem nova alta em relação às principais moedas emergentes, enquanto a lira turca tem queda de mais de 4% em meio à crise cambial dias antes de uma eleição que testará o apoio ao presidente Recep Tayyip Erdogan.

Juros e inflação
Voltando ao Brasil, os principais contratos de juros futuros registram queda forte após a disparada das últimas sessões. O contrato com vencimento em janeiro de 2021 recua 25 pontos-base, a 7,16%, enquanto o com vencimento em janeiro de 2023 tem queda de 29 pontos-base, a 8,31%. 

Atenção ainda para o Relatório Trimestral de Inflação divulgado pelo Banco Central, que trouxe a redução da previsão de crescimento do PIB para este ano de 2,4% para 2%.  

De acordo com o BC, a redução na estimativa de alta do PIB ao crescimento menor do ano passado (que reduz o chamado "carregamento estatístico" da expansão de um ano para o outro), aos "desdobramentos da tragédia em Brumadinho sobre a produção da indústria extrativa mineral; às reduções em prognósticos para a safra agrícola; e, residualmente, à moderação no ritmo de recuperação".

Em destaque no radar corporativo, está a Vale, que encerrou o quarto trimestre de 2018 com um lucro líquido de US$ 3,786 bilhões, uma alta de 391% ante os US$ 771 milhões registrados um ano antes. O número ficou acima dos US$ 2,63 bilhões esperados pelos analistas consultados pela Bloomberg. No ano, o lucro subiu 24,6%, para US$ 6,860 bilhões.

Enquanto isso, a receita operacional líquida da mineradora teve leve alta de 7,05%, passando de US$ 9,167 bilhões no quarto trimestre de 2017 para atuais US$ 9,813 bilhões. No acumulado de 2018, a receita da mineradora teve alta de 7,7%, chegando a US$ 36,575 bilhões. 

Já a Eletrobras encerrou 2018 com um lucro líquido de R$ 13,348 bilhões, revertendo prejuízo líquido de R$ 1,726 bilhão em 2017, o qual foi reapresentado. O resultado vem de lucro líquido de R$ 15,227 bilhões em operações continuadas e prejuízo de R$ 1,879 bilhão em operações descontinuadas, as distribuidoras.

Um novo capítulo da crise política foi inaugurado na última quarta-feira, com mais trocas de farpas entre Jair Bolsonaro e Rodrigo Maia. Em entrevista ao apresentador José Luiz Datena, da TV Bandeirantes, o presidente voltou a negar problemas de relacionamento com o Congresso como um todo e, em particular, com Maia, mas apontou que ele pode estar abalado uma vez que está passando por problemas pessoais. 

O presidente da Câmara rebateu ao dizer que Bolsonaro está "brincando de presidir o país" e que está "na hora de parar de brincadeira". "Abalados estão os brasileiros que estão esperando desde 1º de janeiro que o governo comece a funcionar. São 12 milhões de desempregados, 15 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza e o presidente brincando de presidir o Brasil", disse ele.

Logo depois, Bolsonaro afirmou: "não existe brincadeira da minha parte, muito pelo contrário. Lamento palavras nesse sentido e quero acreditar que ele não tenha falado isso", disse ele ao sair de um evento junto com o governador de São Paulo João Doria (PSDB).

Em meio ao clima ruim entre Executivo e o Legislativo que mais uma vez minou a confiança do mercado com a aprovação de reformas, ministros da ala militar defendem que Bolsonaro procure Maia, destaca o jornal O Globo. Segundo o jornal, Maia e parlamentares desconfiam da disposição de negociação de Bolsonaro, que, segundo ministros, chamará líderes para conversar após retorno de viagem a Israel, na próxima semana.

Vale destacar que, na véspera, Paulo Guedes fez um discurso na CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) do Senado um discurso considerado ponderado. Contudo, as falas do ministro de que a bola da reforma da Previdência agora está com o Congresso e de que não tem apego ao cargo, ao ser indagado se permaneceria no governo caso reforma não fosse aprovada, pesaram negativamente no mercado. 

Conforme aponta a coluna Painel, da Folha, o destinatário dos recados do ministro é o próprio presidente. A própria equipe de Guedes ficou apreensiva com aviso público de que, sem respaldo, ele deixa o posto. Enquanto isso, o Estadão informa que líderes já falam em risco de ‘governabilidade’ e dizem que reforma já passou ao segundo plano.

Ainda sobre a relação complicada entre o governo e o Congresso, após a derrota do governo na véspera com a aprovação da PEC do Orçamento Positivo na Câmara, a Casa agora ameaça votar projeto que obriga o governo federal a repassar R$ 39 bilhões aos Estados como compensação da Lei Kandir, que desonerou o ICMS das exportações. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), no entanto, diz que espera o "sinal verde" da equipe econômica para pautar o projeto.

A área econômica trabalha nos bastidores para barrar mais essa pauta-bomba para as contas públicas com a negociação conjunta de um programa de ajuda aos Estados. A estratégia é buscar diálogo e negociar com os parlamentares e governadores acordo para um novo projeto, que inclui a divisão com Estados e municípios de recursos da exploração do pré-sal. A elaboração do projeto já vinha sendo negociada, mas a crise política colocou os repasses da Lei Kandir na ordem do dia.

 


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