15/02/2014 às 00h31min - Atualizada em 15/02/2014 às 00h31min

Às vésperas da Copa do Mundo, pessoas com deficiência denunciam a qualidade precária das calçadas

Buracos, falta de sinalização, degraus irregulares, rampas inadequadas (ou inexistentes), calçadas com largura menor que a permitida, ruas cheias de lixo e outras barreiras tornam as ruas das cidades brasileiras repletas de obstáculos para a pessoa com deficiência.

Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência

Segundo relatório divulgado em 2012 pela Mobilize Brasil, as principais ruas brasileiras “não tem sequer um pavimento regular, sem buracos, exigência mínima para um caminhar seguro”. Conforme avaliação feita em 39 cidades pela organização, a nota média das calçadas brasileiras ficou em 3,40, numa escala de zero a dez.

O Rio de Janeiro teve um resultado ainda mais preocupante: 1,99 é a nota média. Em uma rápida volta pelas ruas da cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016, é possível constatar todas estas diferentes barreiras pelo caminho, o que demonstra que a acessibilidade está longe de fazer parte do cotidiano dos cariocas. “Há muitos obstáculos, faltam calçadas lisas, orientações, trilhas para bengala e corrimãos. Minha canela e cabeça já levaram muita pancada”, reclama o deficiente visual Alcei Garcia, 77 anos, que mora em Irajá, na zona norte, e frequenta semanalmente o Instituto Benjamin Constant, na Urca.

Mesmo após as obras de acessibilidade divulgadas pelo prefeito Eduardo Paes através de programas como Rio Acessível e Calçada Lisa, a qualidade das ruas cariocas é ainda um dos principais motivos de reclamação. “Nossa Prefeitura só está fazendo maquiagem ao consertar algumas ruas de Copacabana, um bairro sempre visitado pelos turistas. O descaso é tamanho que muitas novas rampas foram construídas com os bueiros na frente e mais baixo, porque o asfalto é recapeado constantemente, oferecendo perigo aos cadeirantes e pedestres. Eu já precisei de ajuda de pedestres por ter quase virado em uma delas. Ainda há ruas com rampa de um lado da calçada, mas do outro não. Precisamos de alguém que nos ajude a sermos tratados com respeito”, desabafa a cadeirante Sandra Bernardt.

Os moradores do bairro de Vicente de Carvalho também reclamam da qualidade precária das calçadas, sobretudo após as obras da Transcarioca. "As obras não deixaram nenhum legado de acessibilidade. Já entrei em contato várias vezes com órgãos públicos. O que eu sinto é que eles não estão nem aí. É um desrespeito com o dinheiro público e com a qualidade do material que está sendo usado, que é bastante precário. A quem devo recorrer mais uma vez contra o descaso dos nossos governantes?”, questiona o deficiente físico Paulo Moraes.

Para Flavio Marcondes, professor do curso de arquitetura da Mackenzie-SP, as avenidas e ruas do país têm calçadas "muito ruins" e não têm rampas adequadas para a circulação de cadeiras de rodas. “Embora o  Brasil já tenha elaborado normas técnicas e até projetado peças industrializadas para a  construção de rampas de cadeirantes, quando elas existem, as rampas são construídas fora de padrão ou simplesmente não têm manutenção”, denuncia o arquiteto. Mesmo uma região de declives como São Paulo não pode justificar a enorme quantidade de degraus e desníveis em calçadas.  A arquiteta Silvana Cambiaghi, Mestre em Acessibilidade pela USP, cita São Francisco (EUA). "É uma das cidades mais íngremes do mundo. Passei 15 dias por lá em cadeira de rodas e não vi degraus."

 


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