14/03/2019 às 16h56min - Atualizada em 17/03/2019 às 17h36min

35 anos depois: como Julio Cortázar morreu de AIDS sem saber

"Julio Cortázar não morreu de câncer nem de leucemia, como se especulou, mas de AIDS -- com a desgraça de ter passado a doença a sua amada esposa, Carol Dunlop. Ela morreu primeiro, dois anos antes dele, porque ainda era muito jovem, mas já não tinha um rim". Ainda que a notícia fosse conhecida desde 2001, a escritora e jornalista uruguaia Cristina Peri Rossi deu, apenas agora, detalhes sobre as causas da morte do escritor franco-argentino, em 1984.

Em entrevista ao jornal argentino Clarín, ela contou que nem mesmo Cortázar sabia da doença quando a contraiu, por causa de uma transfusão de sangue três anos antes de sua morte. "A AIDS não tinha sido identificada quando ele se contaminou. Era uma doença sem nome. Consistia em um vírus não identificado. Cortázar a contraiu quando vivia no Sul da França, porque sofreu uma hemorragia estomacal em agosto de 1981 e, quando foi hospitalizado, recebeu uma transfusão de vários litros de sangue. Depois, em meio a um grande escândalo, descobriram que ele estava contaminado", revelou.

"Eu tenho uma carta de Cortázar em que ele me disse que tinha 'se convertido em um vampiro de verdade, porque tinham que trocar todo seu sangue e a pobre Carol teve que levá-lo ao hospital mais próximo'", dizia ele.

Em outra carta, ao seu amigo e escritor uruguaio Omar Prego, ele lembrou da transfusão com mais detalhes: disse que estava na cidade de Tholonet, perto de Aix en Provence (761 km de Paris), quando sentiu os primeiros sintomas de uma hemorragia estomacal causada pelas várias aspirinas que tinha tomado por conta de uma gripe. "Foi difícil: me deram mais de 30 litros de sangue, mas pouco a pouco fui saindo daquela situação ruim e agora estou bem na casa de bons amigos", escreveu o autor. Na mesma carta, ele avisa a Prego que voltaria a Paris em outubro daquele mesmo ano.

Anos depois, descobriu-se que o sangue utilizado pelo hospital em Aix en Provence era comprado da Cruz Vermelha, proveniente de imigrantes pobres e que, depois de retirados, não passavam por provas ou análises. A descoberta do caso gerou uma crise no ministério da Saúde da França e culminou na queda do titular da época. "Naquela época ninguém sabia da existência da AIDS", contou Perri. De fato, as faculdades de enfermagem e medicina passaram a trabalhar com alguma identificação do vírus apenas no final dos anos 1980.

De acordo com ela, Cortázar viajou a Barcelona em novembro de 1983 preocupado com o avanço da doença, que os médicos diziam ser uma perda de defesa imunológica. O escritor reclamava de manchas na pele, diarréias e infecções constantes e cansaço. Ela, então, lhe pediu para se consultar com o médico catalão Javier Lentini -- amigo pessoal de Cristina. "Fomos juntos com ele e com os exames. Lentino confirmou que, pelas análises do sangue de Cortázar, podia se descartar a existência de um câncer. Disse que a doença era um vírus raro", relembrou.

O escritor morreria três meses depois, em Paris, para desconsolo até hoje de sua amiga. "Sei que temos que morrer, mas fico triste, porque poderíamos ter evitado a morte dele, ainda que não sei como". Entre as obras-mestres de Cortázar se destaca Rayuela (Jogo da Amarelinha, Civilização Brasileira, 1965), um romance publicado em 1963 que se tornou um clássico indispensável para todo amante de literatura, tanto por sua construção original e pelas mudanças na dinâmica entre o leitor e o livro, mas também pela história confusa do casal Horácio Oliveira e Lucía, ou "La Maga".

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