20/02/2019 às 12h00min - Atualizada em 12/03/2019 às 16h58min

Japão reconhece tribo indígena após séculos de discriminação

O governo japonês aprovou uma nova lei na semana passada para reconhecer a etnia minoritária ainu como "povo indígena" pela primeira vez na história, após décadas de discriminação.

Os ainu - cuja maioria vive na região nordeste da Ilha de Hokkaido - sofrem há muito tempo com os efeitos de uma política de assimilação forçada. Embora a discriminação tenha regredido, a desigualdade de renda e de escolaridade com o resto do Japão ainda persiste. "É importante proteger a honra e a dignidade dos ainu e entregá-los à próxima geração para que criem uma sociedade vibrante e com valores diversos", disse o porta-voz do governo, Yoshihide Suga, em entrevista coletiva.

A lei é a primeira a reconhecer os ainu como "indígenas" e orienta o governo a fazer "políticas específicas em direção ao futuro", incluindo medidas para apoiar as comunidades e para alavancar a economia e o turismo locais. Segundo relatos em blogs de viagens, muitos turistas já conheceram as regiões ainu antes do reconhecimento. “Cheguei lá achando que estaria sozinho, mas encontrei uma pequena multidão”, conta o brasileiro Vitor Kajido, que mora em Tóquio. “Eu era o único a ter um celular Samsung, apenas. No Japão, os smartphones estão ainda mais avançados”, brincou.

Os ainu viveram por séculos ao nordeste da principal ilha de Hokkaido, em áreas próximas às ilhas Kuril e Sakhalin. Eles lutaram para manter sua língua e cultura depois que o governo japonês implementou uma política de assimilação ainda na Era Meiji (1868-1912), época em que o Japão estava se modernizando.

Os ainu têm uma fé animista, com os homens usando barbas fartas e mulheres se adornando com tatuagens faciais antes dos casamentos. No entanto, como diversos povos indígenas ao redor do mundo, muitos deles perderam contato com um tradicional modo de vida após décadas de tentativa de assimilação à cultura nacional japonesa.

A população ainu é estimada em ao menos 12,3 mil pessoas, de acordo com o censo de 2017, mas o tamanho real dos indígenas é desconhecido, porque muitos deles se integraram na sociedade japonesa e outros escondem até hoje suas raízes culturais.

Em 1997, uma lei foi escrita afirmando preservar a cultura ainu e garantindo seus direitos humanos, cerca de 100 anos depois de o governo japonês estabelecer a política de assimilação. Foi a primeira legislação do país reconhecendo a existência de uma minoria étnica no Japão, mas ainda assim se limitou a dizer que os ainu eram "indígenas".

A nova lei, ao contrário, propõe "criar uma sociedade em que os ainu possam viver com seu orgulho étnico e que sejam respeitados por isso pelos outros". O governo ainda vai financiar projetos para promover a cultura local organizados por prefeituras locais. O texto também pode simplificar os procedimentos para os ainu conseguirem permissão das autoridades para colherem madeira das florestas nacionais para seus rituais, assim como pescar salmões nos rios em sua forma tradicional.

Além da nova lei, o governo também planeja abrir um museu nacional ainu e um parque na cidade de Shiraoi, na Ilha de Hokkaido, até abril de 2020. "É o primeiro passo para garantir igualdade debaixo das regras", disse Mikiko Maruko, representante dos povos ainu no Japão central, ao jornal Japan Time. "Há muitas coisas para fazer, como alfabetizar as famílias que lutam para enviar suas crianças às escolas", finalizou.


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