12/02/2019 às 10h37min - Atualizada em 13/02/2019 às 23h19min

Como os estádios de futebol modernos podem ajudar suas cidades a funcionarem melhor

Estádios estão entre as formas mais antigas de arquitetura urbana: de Olímpia a Roma, eles foram por muito tempo o centro das cidades ocidentais, antes das grandes catedrais medievais e das estações de trem da Revolução Industrial. Hoje, porém, os estádios são olhados com um crescente ceticismo.

As construções podem chegar a custar R$ 3,8 bilhões e, depois de prontas para os grandes eventos mundiais, como Copas do Mundo e Olimpíadas, elas podem deixar de ser usadas ou reparadas. Mas não é necessariamente o caso: a história mostra que os estádios podem direcionar o desenvolvimento urbano e se adaptar à cultura de cada época.

Os arquitetos e planejadores estão encontrando novas formas de adaptar as arenas esportivas monofuncionais, que se tornaram emblemáticas da modernização durante o século 20.

O anfiteatro de Arles, cidade a 745 km de Paris, na França, com capacidade para 25 mil espectadores, é talvez o melhor exemplo de como os estádios podem ser versáteis. Construída pelos romanos em 90 a.C., a arena se tornou um forte com quatro torres depois do século V, e depois transformada em um vilarejo com mais de 200 casas. Com o crescente interesse em conservação durante o século XIX, a estrutura foi convertida novamente em arena para touradas.

A imponente arena de Verona, na Itália, com espaço para receber 30 mil pessoas, foi construída 60 anos antes do anfiteatro de Arles e quatro décadas antes do Coliseu, em Roma. Ela passou por todos esses séculos e hoje é considerada um dos templos sagrados da ópera, graças à sua excelente acústica.

Uma pesquisa feita pelo japonês Taisuke Kuroda, da Universidade de Kanto Gakuin, no Japão, revelou que a Piazza dell'Anfiteatro, em Lucca, cidade a 347 km de Roma, na Itália, é outro exemplo impressionante de uma arena que foi absorvida pelo crescimento da cidade. Ela passou os séculos em um processo similar à construção de Arles, na França, progressivamente preenchida com edificações - do período medieval até o século XIX.

Então, foi usada como vilarejo, depois como um depósito de sal, um compartimento de pó e, posteriormente, uma prisão. Mas, em vez de ser revertida novamente em arena, tornou-se uma praça de mercado, projetada pelo arquiteto romancista italiano Lorenzo Nottolini. Hoje, as ruínas do anfiteatro de Lucca permanecem embutidas vivas com lojas e prédios ao redor da praça pública.

Há várias similaridades entre os modernos estádios e os antigos anfiteatros feitos originalmente para jogos. Porém, algumas das flexibilidades dessas arenas foram perdidas no começo do século XX, à medida que estádios eram construídos usando novos materiais, como aço e concreto reforçado, e fazendo uso de luzes artificiais para as partidas noturnas.

Muitos estádios modernos estão localizados em áreas urbanas, projetados apenas para usos esportivos e rodeados por grandes estacionamentos de concreto - passagens para São Paulo, Buenos Aires ou Madri são vendidas aos montes todos os anos para turistas que desejam conhecer os campos famosos das cidades, como o Pacaembu, a Bombonera ou o Santiago Bernabéu, respectivamente.

Esses fatores significam que eles podem ser menos acessíveis ao público geral, para além dos amantes de futebol ou outros esportes, e requerem mais energia para funcionar, contribuindo para o calor das cidades. Porém, arquitetos europeus e japoneses iniciaram um projeto cujo objetivo é ajudar os estádios a melhorarem suas cidades. Entre as estratégias atuais, duas parecem já ter sucesso: as arenas como espaços para os moradores e como um lugar de geração de energia.

Há uma tendência de que os estádios sejam equipados com espaços públicos e serviços que funcionam para além dos esportes, como hotéis, lojas de varejo, centros de conferência, restaurantes e bares, parques para crianças e espaços verdes. Criar espaços mistos, como reforçar a multifuncionalidade, faz com que as arenas modernas tenham usos mais eficientes e ajudem a construir novos espaços urbanos.

O Corinthians, por exemplo, planeja construir em 2019 uma quadra poliesportiva, um restaurante, um campus de universidade, um laboratório de exames médicos, uma loja da NBA e uma arena de games na Arena Corinthians, em Itaquera, zona leste da capital paulista. Os estacionamentos ao redor do estádio já costumam ser utilizados para eventos esportivos ou mesmo para festas.

Os estádios do mundo todo tiram inspiração dos modelos britânicos: as facilidades multifuncionais de Wembley, em Londres, e do Old Trafford, em Manchester, tornaram-se exemplos para muitos outros no mundo. O Craven Cottage, do Fulham, está passando por uma grande reforma, que vai estender a entrada da arena até as margens do Rio Tâmisa, na capital britânica, e adicionar lojas e apartamentos na estrutura.

O fenômeno de estádios como estações de energia cresceu com a ideia de que problemas energéticos poderiam ser superados pela integração de edifícios por meio de redes inteligentes, que fornecem eletricidade usando tecnologias de comunicação digitais para detectar e reagir aos distintos usos locais - sem gerar perdas significativas de energia. Estádios são ideais para essas propostas, porque suas estruturas têm uma grande área para a instalação de painéis fotovoltaicos. Além disso, eles são altos, o que permite a instalação de microturbinas eólicas.

O Freiburg Mage Solar Stadium, em Freiburg, na Alemanha, é o primeiro estádio de uma nova geração de arenas que são, ao mesmo tempo, geradoras de energia. Outros exemplos são a Amsterdam Arena, na Holanda, e o Kaohsiung National Stadium, em Hong Kong.

O Kaohsiung foi inaugurado em 2009 com 8,8 mil painéis fotovoltaicos que produzem 1,14 GWh de eletricidade anualmente. Isso significa a redução de 660 toneladas de dióxido de carbono despejado na atmosfera todos os anos e ainda o fornecimento de 80% de eletricidade da área ao redor quando não está sendo usado para partidas. Uma prova de que um estádio pode servir à cidade.

"Os estádios permanecem como um motor imortal da cidade. Em cada era, o estádio adquiriu novos valores e usos: das guaridas militares aos vilarejos residenciais, dos espaços públicos aos teatros e, mais recentemente, um campo de experimentação em engenharia avançada. Agora, em vez de se tornar algo mais, as arenas trazem múltiplas funções para ajudar as cidades a criar um futuro sustentável", comemorou Alessandro Mellis, professor de urbanismo da Universidade de Portsmouth, na Inglaterra, ao jornal The Guardian.


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