27/09/2018 às 17h37min - Atualizada em 28/09/2018 às 15h27min

Paraguai: o paraíso dos carros usados importados para a América do Sul

O Paraguai se tornou o principal destino sul-americano de carros usados de países como Japão e Estados Unidos graças à regulamentação permissiva que facilita a compra de veículos usados para a população de classe média baixa do país.

Conhecidos como "autos de Iquique", em referência ao porto da cidade chilena de Iquique em que os carros chegam, os veículos importados de segunda mão se tornaram um fenômeno no país, onde são postos em circulação depois de uma viagem de meses pelos oceanos e uma transformação -- do lugar do volante aos motores -- para rodar nas cidades paraguaias.

"Ninguém é bobo e todo mundo sabe que os preços que oferecemos são bons", explicou à agência espanhola Efe Francisco López, dono de um negócio em Assunção que vende carros usados comprados do Japão, da Coreia do Sul e dos EUA. Os veículos custam cerca de US$ 7,4 mil (R$ 29,6 mil na cotação de setembro), segundo ele.

"O problema é que o mercado vai se tornando menor, porque muitas pessoas perceberam a rentabilidade do negócio", admitiu ele que, segundo a Efe, trabalha há 17 no ramo.

A Direção Nacional de Aduanas (DNA) do Paraguai afirma que, dos 3,2 mil carros e vans usados que chegaram ao país em 2003, o volume cresceu para 35 mil em 2008 e, enfim, para 55 mil em 2013, último ano que a medição foi feita. Na contramão, a importação de automóveis novos chegou a 28 mil naquele mesmo ano, uma queda de 1,72% em relação a 2012, segundo dados da Câmara de Distribuidores de Automotores y Maquinarias (CADAM).

Os dados do primeiro trimestre de 2013 refletem um aumento de 14% na importação de veículos usados em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto, por outro lado, a compra de carros novos caiu 16%.

A chegada ao Paraguai de veículos usados é o fim de um longo processo que se inicia quando eles são descartados em seus países de origem e embarcados em navios para o porto de Iquique, no norte do Chile. De lá, eles são colocados em caminhões que os leva ao Paraguai e à Bolívia, países onde são modificados, revisados e, enfim, vendidos.

O transporte encarece a venda deles no destino final em US$ 2 mil (R$ 7,9 mil), afirma López, mas mesmo assim é mais barato do que comprar um automóvel de primeira mão dos vendedores que oferecem créditos e financiamentos aos clientes paraguaios e bolivianos.

"Eu pago cerca de US$ 1,3 mil (R$ 5,1 mil) por carro para o transporte de navio até Iquique, outros US$ 600 (R$ 2,3 mil) para levá-los via terrestre até Assunção e, depois, se tiver que mudar o volante, mais US$ 500 (R$ 1,9 mil)", explicou López à Efe. Ele administra a "playa" -- como são conhecidos os lugares de modificação dos carros -- mais importante de Assunção.

O aumento da importação desses veículos se ampara em uma legislação propícia: o Paraguai permite a compra de unidades com dez anos de uso, enquanto o Peru limita esse número a cinco anos -- países como a Argentina e o Brasil proíbem esse tipo de negócio. O leilão de Curitiba, um dos maiores do país, administrado pela Sodré Santoro, só possui carros de frotas de empresas, de sinistros com bancos ou de seguradoras.

"O governo argumenta que os carros com mais de cinco anos são mais contaminadores, mas não é verdade. Nós revisamos todos e adaptamos cada um para as necessidades locais", explicou López.

O "boom" de veículos usados no Paraguai não é visto com bons olhos por todo o mundo: os principais prejudicados são os associados da CADAM, que viram baixar as ofertas por carros novos nos últimos anos, ao mesmo tempo em que a demanda pelos "autos de Iquique" cresceu. O número de "playas" também aumentou e o Centro de Importadores de Vehíclos Usados (CEVI), que regula o setor no país vizinho, já conta com mais de mil associados. A expectativa da entidade é que o negócio siga em crescimento nos próximos anos.

O bom momento que vive o mercado de automóveis usados no Paraguai faz com que a fórmula se expanda para outros países: o CEVI já faz negócios na Espanha e em Portugal por causa da crise econômica, além do Oriente Médio -- região em que, segundo os negociantes, as exportações estão em ritmo acelerado há pelo menos uma década.

O caso boliviano

Na Bolívia, o negócio começou a encontrar barreiras: em janeiro de 2015, o governo decidiu proibir a importação de carros com mais de dois anos de uso. Antes, uma lei de 2009 já havia exigido que apenas veículos com menos de três anos de uso poderiam entrar no país -- uma iniciativa que visava melhorar os índices de emissão de gás carbônico na atmosfera, além de equilibrar o trânsito nas principais cidades bolivianas.

O decreto foi fatal para uma indústria que se especializou em viajar até Iquique ou Arica, portos chilenos, para comprar os veículos oriundos do Japão e revendê-los na Bolívia. Em 2008, a zona franca de Iquique vendeu US$ 920 milhões em carros usados aos compradores bolivianos. À época, a decisão do presidente Evo Morales gerou uma tensão comercial entre os dois países.



 
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