20/05/2024 às 08h52min - Atualizada em 20/05/2024 às 20h07min

Até 2035 cerca de 1 bilhão de pessoas adotarão o nomadismo digital como estilo de vida

Como os nômades digitais estão transformando, e podem aquecer ainda mais, o mercado de locação por temporada nos próximos anos

LUH PANTOJA
Maíra Jardim
O fenômeno do nomadismo digital, ou seja, o estilo de vida em que a pessoa aproveita a modernização da tecnologia para realizar suas atividades profissionais de forma remota, foi impulsionado pela pandemia de COVID-19. O modelo está remodelando de forma significativa o mercado imobiliário, levando milhões de pessoas ao redor do mundo optarem pelo estilo de vida nômade digital, e com isso, têm gerado um aumento significativo na demanda por locações de imóveis a curto prazo em diversas regiões.

A compositora e musicista, Amorina, integra o time das pessoas que escolheram viver o nomadismo digital. A artista realiza remotamente seu trabalho como Social Media, e também utiliza das facilidades proporcionadas pelas novas tecnologias durante sua estadia pelos países em que viaja para realizar as gravações de seu terceiro disco, ainda sem nome. “Eu uso meu smartphone para gravar os sons locais, e também o bloco de notas online para registrar as sensações individuais que tenho ao passar por cada cidade”, destaca Amorina.

Dados do Relatório Global de Tendências Migratórias 2022, da Fragomen, indicam que até 2035, cerca de 1 bilhão de pessoas adotarão o nomadismo digital como estilo de vida. Esse crescimento é especialmente impulsionado pelas gerações millennial e Z, que estão em busca de mais liberdade geográfica, flexibilidade e bem-estar mental em suas carreiras. Nos Estados Unidos, por exemplo, o número de nômades digitais aumentou em 131% em comparação a 2019, segundo a pesquisa State of Independence, da consultoria MBO Partners.

No Brasil, o Rio de Janeiro tem estimulado a chegada de nômades digitais institucionalmente por meio da Secretaria de Turismo, e tem visto um aumento significativo nos gastos de hóspedes em acomodações reservadas por meio do Airbnb, totalizando 5,2 bilhões de dólares em 2022. De acordo com dados divulgados na plataforma, esses gastos representam uma parcela significativa da atividade turística direta do país.

Já no Rio Grande do Norte, a cidade de Pipa anunciou a criação de uma vila para nômades digitais. E a Paraíba foi pioneira no tema tendo sua capital, João Pessoa, como destino mais bem preparado do país para receber esse tipo de viajante, segundo publicação de Diana Quintas, da Fragomen.

Com essa elevação nas locações, invariavelmente há um estímulo à economia local, com a possibilidade de geração de empregos e aumento da demanda por serviços locais, como restaurantes, cafés e comércio em geral. Esses benefícios econômicos têm sido especialmente importantes no contexto pós pandemia, contribuindo para a recuperação econômica de diversas regiões.

Pesquisa e momento de criação artística
Amorina afirma que sua profissão como cantora lhe proporcionou uma jornada de descoberta e paixão por viagens. Desde 2006 até 2020, a artista mineira teve a oportunidade de percorrer diversas cidades brasileiras, levando sua música para os mais variados públicos e cenários. Em 2018, Amorina ampliou seus horizontes além das fronteiras do Brasil ao realizar uma turnê na Argentina, o que acabou por despertar ainda mais sua curiosidade e desejo de explorar o mundo.

“A partir de 2016, enquanto continuava minha jornada como cantora, comecei a pesquisar sobre o estilo de vida dos nômades digitais. Inspirada pela liberdade e aventura das minhas viagens como artista, decidi trilhar o caminho para me tornar uma nômade digital em tempo integral, processo de transição que consolidei em 2022”, conta a compositora ao tomar a coragem que faltava para viver a vida no estilo de nomadismo.

Em 2023, ela embarcou em seu projeto de explorar a América do Sul. Durante dois meses ela vivenciou intimamente a cultura de três cidades da Argentina, seguidas por um mês e meio em duas cidades do Chile. Além de uma breve passagem pela Bolívia que lhe proporcionou diversos materiais para suas novas composições.

Já em relação à moradia de curta temporada, a artista afirma que as novas plataformas de locação são as possibilidades mais seguras para quem decide viver o nomadismo porque por meio delas é possível resolver as questões relacionadas a hospedagem que segundo Amorina, ‘é a parte mais cara e burocrática do nomadismo’.

Amorina diz que as locações de espaços inteiros nessa modalidade se tornam ainda mais interessantes devido à possibilidade de a alimentação ser feita em casa, diminuindo ainda mais seus gastos nas viagens. Os imóveis por temporada são responsáveis pela sua economia em cerca de 50% dos custos com moradia, pois o uso de internet para o trabalho e despesas com água e energia já estão inclusos no valor da estadia.

Aumento das locações e impacto local
O aumento das locações de temporada por nômades digitais representa não apenas uma tendência atual, mas também um indicativo poderoso das transformações que estão por vir no mercado imobiliário e nas economias locais.

À medida que mais pessoas vêm adotando o nomadismo digital, a demanda por locações de curto prazo tende a crescer exponencialmente. Isso não apenas impulsiona a economia local, gerando empregos e aumentando a demanda por serviços locais, mas também redefine a própria noção de trabalho e moradia.

Carlos Costa, anfitrião no Rio de Janeiro há nove anos pelo Airbnb, conta que antes da pandemia os hóspedes eram apenas turistas e que aproveitavam os poucos feriados anuais ou o mês de férias do trabalho para viajar. “Depois da pandemia, que mostrou ser viável o home office, já não há essa limitação de só poder viajar nas férias, e aí surgiram os nômades digitais que viajam em qualquer época do ano. E, isso é claro que teve um impacto nas reservas”, afirma Carlos.

Para as regiões que conseguirem se adaptar a essa nova realidade e oferecer infraestrutura adequada e regulamentações favoráveis, há a oportunidade de se tornarem destinos altamente atrativos para nômades digitais. Esses locais não apenas poderão se beneficiar economicamente, mas também experimentarão um enriquecimento cultural e social, à medida que recebem uma gama diversificada de pessoas e ideias.

Para Sonia Dreyfuss, locatária em São Paulo há três anos e meio através da plataforma Airbnb, “o hóspede que aluga o espaço a trabalho parece ter uma condição socioeconômica mais estável, discute pouco os valores cobrados e efetua compras por entrega constantemente, o que do ponto de vista cultural e financeiro é positivo para a região”.

Anna Karla Lage, administradora e nômade digital há nove meses, declara que “sem os aluguéis de temporada seria muito mais complicado ser uma nômade porque haveria menos formas de preparar com cuidado e segurança minhas estadias”.

Para Carlos, por ser mais em conta do que os hotéis, o aluguel por temporada gerou aumento no número de turistas e criou um novo nicho de viajantes, proporcionando um impacto na economia local. “Efetivamente nos últimos dois anos o mercado de aluguel por temporada ficou bastante aquecido, com muitos hóspedes e reservas. Entretanto, o número de imóveis disponibilizados também cresceu bastante saturando o mercado, o que pode gerar uma crise de super oferta de acomodações no setor”, conclui.

Por isso, é crucial que essas transformações sejam gerenciadas com cuidado, de modo a evitar problemas como a gentrificação descontrolada e o aumento da desigualdade. Governos e comunidades locais precisam trabalhar juntos para garantir que o crescimento do nomadismo digital seja sustentável e inclusivo, de modo a beneficiar a todos os envolvidos.

“Não somos turistas e não somos moradoras”, no final das contas, somos nômades. Estamos de passagem pelo local, vivenciando a cultura e aprendendo com tudo que a estrada nos traz!”, finaliza Amorina. “Eu acho que na relação construção da relação com as pessoas locais, depois que você se estabelece na região, começa a acontecer uma troca muito legal, onde você passa a conhecer mais profundamente a cultura daquele lugar, e as pessoas aprendem também com nossa história e vivência”, completa Anna.

Assim, o aumento das locações por temporada por nômades digitais não é apenas um reflexo das mudanças atuais, mas também um indicativo do potencial transformador que esse estilo de vida pode ter nas regiões que souberem aproveitar essa oportunidade de maneira estratégica e consciente.

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LUCIA MARIA MIRANDA SANTOS
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