09/06/2016 às 12h12min - Atualizada em 09/06/2016 às 12h12min

O futuro da caridade

José Pio Martins*

Central Press

Uma sociedade tem dois caminhos para ajudar os pobres e os incapacitados para o trabalho. O primeiro é a caridade individual, pela qual somos levados a fazer doações para pessoas e instituições de assistência. O segundo é a caridade coletiva, cujo instrumento é o pagamento de impostos ao governo para que este, em nome da sociedade, monte programas sociais de ajuda.

O primeiro caminho depende da cultura nacional e dos costumes do povo. Ao contrário do que se apregoa por aí – sobretudo quando multidões acorrem para fazer doações a desabrigados em enchentes –, o povo brasileiro é um dos que menos contribuem com doações individuais no mundo. As instituições filantrópicas vivem à míngua e a frase mais ouvida é “não dou dinheiro para essas instituições porque não confio nelas e em seus dirigentes”.

No Brasil, é raro um empresário ou um ricaço doar parte de sua fortuna – nem mesmo depois de morto – a qualquer instituição social. Em vida é que ninguém doa nada mesmo. Nesse ponto, os Estados Unidos dão um show. Somente Bill Gates e Warren Buffett doaram US$ 70 bilhões para uma fundação social. Quando Bill Gates fez um cheque de US$ 1 bilhão somente para o programa de combate à malária na África, a Madre Teresa de Calcutá deve ter se virado no túmulo e pensado: “Esse homem, em dois minutos, fez mais pelos africanos que milhões de voluntários em um ano”.

O segundo caminho – o da caridade coletiva – depende da arrecadação de tributos pelo governo e da eficiência no gerenciamento dos programas sociais. Pelo imposto, até os de coração duro são levados a fazer o bem, desde que trabalhem, ganhem dinheiro e paguem os tributos. Roberto Campos dizia que “o mundo será salvo pelos eficientes, não pelos caridosos”. Se os eficientes não produzirem – e não pagarem impostos –, os caridosos não terão o que distribuir. Mas isso não basta. O governo tem de fazer a sua parte e ser eficiente, do contrário o dinheiro se perde na burocracia e na corrupção.

Há alguns anos, o Banco Mundial fez severas críticas aos programas sociais – sobretudo nos países do terceiro mundo, nos quais apenas 20% de muitos programas chegavam ao destinatário final. Roberto Campos vivia escrevendo que os programas de ajuda social – a exemplo do Bolsa Família – devem ser instrumentos para mitigar a pobreza enquanto as pessoas se preparam para cuidar de si mesmas. Um homem somente tem condições de deixar a pobreza se ele acumular em si mesmo duas marcas: conhecimento e trabalho.

Foi pensando nisso que, ao assumir o Senado em 1983, Roberto Campos apresentou um conjunto de projetos voltados a dois temas: educação e emprego. Pela educação, o homem eleva seu nível de conhecimento; pelo emprego, ele tem a oportunidade de trabalhar e sustentar a si mesmo. Pois aí está o futuro da caridade coletiva. Os programas sociais deveriam exigir que os beneficiados se vinculem a programas de educação, treinamento e trabalho.

Confúcio, cinco séculos antes de Cristo, já ensinava: “Dê a um homem um peixe e você o alimentará por um dia. Ensine-o a pescar e você o alimentará por toda a vida”. Mas ensinar o homem a pescar é dar-lhe independência, e isso não é bom para os populistas que gostam de comprar votos com o dinheiro dos outros.

*José Pio Martins é economista e reitor da Universidade Positivo.


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