20/09/2023 às 02h19min - Atualizada em 27/09/2023 às 02h19min

Ô Glória

Do Cafofo do Dezena: Crônica Viva

A Babel brasileira é o Brás. Espetacular. O corre-corre de comerciantes e compradores começa às duas da manhã. Muito antes do sol apontar, brasileiros, árabes, iraquianos, indianos, bolivianos, chineses, peruanos, moçambicanos, coreanos, angolanos e outros, de diferentes matizes, costuram as ruas a partir da João Teodoro, passando pela Barão de Ladário, tendo o epicentro na Tiers. Muitos me questionam:
— Por que começam às duas da manhã?
Conto o que me contaram. Os comerciantes menos abastados, aqueles que não conseguiam ter uma loja física, começaram a vender seus produtos pelas ruas antes do comércio oficial abrir, de madrugada. Quando dava sete da manhã e o comércio instalado erguia as portas, eles recolhiam suas mercadorias e se mandavam antes do rapa. Não importava se ventasse, chovesse ou fizesse frio. O estômago necessitava. Políticos se apiedaram daquela situação. Os danados sempre têm um olhar diferente quando podem ganhar dinheiro. Existia um grande terreno junto à Avenida do Estado, discutido durante anos a quem pertencia: governo federal, estadual ou municipal; e para ele os comerciantes de rua, após catalogados, numerados e identificados, para cobrança de impostos, foram levados. Deu-se o nome, em discursos e placa inaugural, de: FEIRA DA MADRUAGADA. De nada adiantou, para o lugar daqueles que saíram das ruas e foram para a feira, outros vieram. A moda pegou. Hoje os ônibus trazendo os compradores, milhares deles todos os dias, de todos os cantos, chegam de madrugada e até mesmo os shoppings particulares, de milionários investidores, abrem nesse horário.
A Babel é fácil constatar. Andando pelas ruas, percebe-se nas feições, modo de falar e no ininteligível dialeto o quão diverso é o bairro. Arrisco-me a dizer: a Istambul dos novos tempos. Podem me perguntar: onde fica o porto? No Brás, ainda não tem, como na 25 de março já teve. Por que acham que a ladeira mais famosa de lá se chama Porto Geral? Mas todos afirmam, para maior prosperidade, que em breve teremos uma nova estação do metrô inaugurada no Brás. Ô glória! Gritarão os fiéis das centenas de igrejas que por lá se multiplicam. Ô glória! Agradecerão os milhares de comerciantes e consumidores. Que pena! Reclamarão as centenas de donos de estacionamentos, diga-se, os mais caros da cidade. Quanto à centenária estação Brás, onde o pai de meu amigo Moacyr trabalhou, continuará a existir. Ô glória!

Fernando Dezena é escritor. Membro da Academia de Letras de São João da Boa Vista, Diretor da UBE – União Brasileira de Escritores e Curador Literário do Espaço Cultural da Boca do Leão

Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »
Fale pelo Whatsapp
Atendimento
Precisa de ajuda? fale conosco pelo Whatsapp