04/06/2021 às 09h51min - Atualizada em 04/06/2021 às 13h48min

Escassez de água e a crise que veio para ficar

André Castro Santos e Flávia Bellaguarda
Imagem: CNN Brasil

O Brasil é um país extremamente privilegiado no que se refere à disponibilidade de água. Cerca de 12% da água doce superficial do planeta está em território brasileiro. Apesar disso, o país tem passado por sucessivas crises hídricas, que têm impactado o fornecimento do recurso nas grandes cidades. Isso tem causado aumento na conta de energia elétrica, além de prejuízo a diversos setores da economia que dependem diretamente da água, como irrigação agrícola, piscicultura, transporte fluvial, entre outros.

 

Afinal, o que está acontecendo? Porque falta água no país que mais tem esse recurso disponível? A resposta para essa pergunta passa por uma composição de fatores ambientais, culturais e de infraestrutura.

 

Quanto aos ambientais, destacamos a mudança do clima, que têm influenciado no regime de chuvas. Principalmente por conta do desmatamento da Amazônia, as Regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil têm recebido menor quantidade de chuva. Isso porque muito da umidade que forma as nuvens de chuva vem da região amazônica, pelos chamados rios voadores. Com a diminuição da cobertura vegetal, estes “rios” carregam cada vez menos umidade, diminuindo a disponibilidade de água nas regiões onde se concentra a maioria da população e onde está a principal área agrícola do país.

 

Como fator cultural, ressaltamos o fato de que o brasileiro é acostumado com abundância de água, o que leva a uma cultura de desperdício. Falta de água é novidade para nós, que nos habituamos a lavar automóveis e calçadas com água corrente e a tomar longos banhos. Estes hábitos são impensáveis em países europeus, por exemplo, onde esse recurso é mais escasso e, por isso, percebido como mais valioso. Além disso, o desperdício e a poluição da água por setores que causam grande impacto no ambiente, como indústria e mineração, também devem ser sublinhados. Afinal, estamos com menos disponibilidade de água doce e parte significativa dela está poluída e imprópria para consumo.

 

Por fim, destacamos que o Brasil conta com uma infraestrutura ainda precária de transposição de água entre suas bacias hidrográficas, aspecto fundamental para distribuir melhor os recursos hídricos de áreas em que há abundância, para aquelas onde está em falta. Em meio à crise hídrica de 2016, o estado de São Paulo promoveu uma série de obras para minimizar este problema, interligando sistemas de armazenamento de água. Mesmo assim, o estado está passando por uma nova crise. Esta interligação de bacias deveria ocorrer em todo o território nacional e ser prioridade para o Governo Federal, uma vez que esta é uma solução que demanda tempo e investimento. 

 

Crises hídricas vão se tornar uma realidade comum para os brasileiros nos próximos anos e devem se agravar se mantivermos uma governança ambiental tão fragilizada quanto a atual. Devemos cobrar de nossos governantes mais comprometimento com o meio ambiente e com nossas florestas, de modo a manter um regime de chuvas suficiente para nosso abastecimento e exigir que façam as obras de infraestrutura necessárias para diminuir nossa exposição à escassez. Mas cabe também a nós manter um consumo mais consciente e com menos desperdício desse recurso essencial à nossa existência.

 
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