13/09/2014 às 09h58min - Atualizada em 13/09/2014 às 09h58min

Ruy Jobim Neto

Cineasta e Cartunista

Thiago Santos

 Thiago Santos: Como se deu  seu primeiro contato para com o mundo da arte!

 Ruy Jobim Neto: Desde sempre (risos). Comecei admirando as revistas e livros antigos com tiras cômicas americanas. Daí para Disney e Maurício de Sousa nas bancas de revista, foi um pulo. Isso no final dos anos 60, início dos 70. A revista Mônica, por exemplo, lembro que eu lia mais ou menos em 1973, ao mesmo tempo em que havia outras publicações da Editora Abril (O Gordo e o Magro, Heróis da TV – com personagens de Hanna-Barbera, Pica-Pau, Pantera Cor-de-Rosa) e outras casas publicadoras como a EBAL (Pernalonga, Superman) e da Rio Gráfica Editora (Heróis Marvel, etc.). Ou seja, minhas primeiras lembranças de quadrinhos – e era uma época ótima – realmente denunciam a idade (risos). Mas foi isso mesmo, esse foi o primeiro contato com o mundo da arte. E a partir daí, como criança, a gente começa a rabiscar, a querer imitar, a desenhar e ver as possibilidades de a gente também criar coisas, personagens, histórias.

 

 Num todo de sua formação você é cartunista, cineasta e também ator. O que tais artes representam para o ser humano Ruy Jobim?

 Acredito que essas funções ou formações formem a base. Ou ainda, o início da caminhada. Posso resumir tudo numa palavra em inglês, “storytelling”. Esse é o fundamento. O storytelling, a comunicação com um público, o contar histórias. Afinal, nada de mais eterno ou humano – contamos histórias desde as cavernas, desde quando nos damos por gente. Enquanto houver no mínimo duas pessoas, haverá algo pra contar. Mesmo que por mímica.

 

 Entre as belas artes, sua graça também leciona. Qual a sensação de servir ao próximo o saber artístico?

 Novamente toco no tema anterior. O alcance aos corações e às mentes do público, se a mensagem for de liberdade, se ela for de valores, de tradições que elevem os povos, que discutam e afastem de nossas almas e povos a tirania, o totalitarismo, as opressões, se for para ajudar a todos a perceberem que somos, sim, todos, herdeiros de um mundo que está sendo destruído e dominado e que precisamos lutar contra tudo isso, enquanto a arte estiver a serviço do ser humano, estamos bem. Se isso desaparecer, será o obscurantismo total. Daí a importância da criação artística. Da liberdade. Criar é permitir a liberdade a ganhar asas. Isso está dentro de cada ser humano. Só que tem gente que nem percebe isso. Ou que luta contra. (risos) Filosofadas à parte, o ser humano é extremamente louco. Só a arte salva.

 

 O que me surpreende em sua pessoa é saber que você ousou viver também o fascinante ato da escrita. Nos fale a respeito.

 No meu caso específico, sempre escrevi. Quando fazia meus quadrinhos, eu escrevia. Fazendo teatro e cinema, eu escrevo. Sobre ser fascinante, sim, a arte da escrita é fascinante. É mágico, é libertador. É tão único e mágico que, quando uma ideia te vem à cabeça e você começa a escrever, é a ideia que te comanda, é ela que domina – mas é um domínio bem-vindo, esperado. É tudo o que se quer. Daí, escrever. Como outra forma de storytelling, que pode muito bem ser qualquer outra, escrever – só o escrever – te abre o mundo.

 

 Revele para todos sua criação mais conhecida como cartunista!

 Jarbas nasceu em 1989. Na ECA-USP, e as primeiras tiras foram escritas, desenhadas e arte-finalizadas ainda nos dias finais do curso de Cinema. Em 1993 a tira foi publicada pela primeira vez num jornal do litoral paulista. Três anos depois, o personagem ganha as bancas de jornal de todo o Brasil através da revistinha bimensal de passatempos “Brincadeiras do Jarbas”, publicada pela Bentivegna Editora, de São Paulo e distribuída pelo território nacional pela Dinap, da Editora Abril. Mais tarde, em 2002, surgiu a compilação “Na Tigela com Jarbas”, um livro de tiras cômicas coloridas, 120 páginas, cerca de 300 tiras. Um livro de auto-ajuda canina. (risos) Finalmente, o Jarbas completou seus 20 anos de bancas em 2006, mas teve que se retirar de cena. Aposentou-se. Não havia mercado para ele. Mas são contingências de uma cultura como a nossa, que valoriza todo um outro tipo de coisa.

 

 Qual o significado de viver em prol da criação?

 Poderia responder essa pergunta com outra pergunta: “aqui, neste País?” . Mercadologicamente falando é complicadíssimo, cheio de regras e instruções normativas, de exigências descabidas...e carente de livre mercado. Podia falar de cinema, por exemplo, iria ficar quase eternamente falando. Quadrinhos, neste País, já encerraram. Fecharam e nem foi pra balanço. Estamos num país em que escritores lançam livros que todos compram mas ninguém lê. O leitor vai às sessões de autógrafos por causa do escritor, o livro pouco importa. Então, as formas de arte, para que se possa viver a partir delas – neste país, precisamos frisar – estão capengando, mal das pernas. O que falta é meritocracia e sobram interesses de grupos fechados, os mesmos de sempre que sempre ganham os mesmos prêmios e todos os editais. Coisas tupiniquins de Pindorama. Há jeito de mexer nisso pra melhorar? Há. Mas vai custar gerações pra que a prosa tome rumo mais democrático e republicano. Sim, pois a arte é democrática e republicana, é coisa pública sim.

 

 Para finalizar nos fale sobre seus projetos atuais e futuro!

 Acho que um bom e singelo primeiro longa-metragem na filmografia é um bom começo, não? (risos) Se ele será de ficção ou documentário, o tempo dirá. É a próxima meta, com certeza. O problema é fazer cinema neste País. Pior ainda é exibir e distribuir filmes, é incrível. O pessoal percebe que a tecnologia facilita produzir, aí é que eles travam tudo o que podem na distribuição e na exibição, praticamente dificultam ao máximo o cidadão de apresentar sua produção. Não importa se for longa ou curta. Agora, é incrível como a produção absolutamente independente, autônoma, sem um centavo sequer vindo do governo, é incrível como esse tipo de produção é punida neste País. Parece que não tem vez. Parece que não é cinema. Então, projetos futuros ou atuais, em cinema (e mesmo em teatro) têm que levar em conta para quem você está fazendo (ao menos aqui, a não ser que você exiba o filme lá fora, no exterior), e em que situação de mercado você vai inserir tua obra. No nosso caso, com tudo regulado, tudo burocratizado, tudo lento, tudo aparelhado para que os poucos e apaniguados consigam coisas. O Brasil, em cinema e teatro, deixou de ser republicano. Talvez nunca tenha sido. O duro é que ninguém quer mudar nada, nunca. Mas sobre futuro? Talvez não seja aqui, no Brasil. Será que vale a pena aqui, no Brasil? É um bom questionamento, esse.

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