06/08/2014 às 11h03min - Atualizada em 06/08/2014 às 11h03min

Pedalar, para quê?

Ao criar as novas ciclofaixas, Haddad repete erro das faixas de ônibus: o diálogo

Foto: freimagees.com

Ao olhar algumas fotos do prefeito Haddad (pedalando em inaugurações de ciclofaixas com terno e gravata) relembro da reportagem que fiz com um funcionário que percorria da cidade Tiradentes até o bairro da Mooca. Lembro-me que o acompanhei da estação Itaquera até a Imprensa Oficial (Mooca). Nesse trecho utilizamos a ciclovia ao 'lado' dos trilhos da linha vermelha do metrô.

E ao visualizar as novas ciclofaixas criadas a toque de caixa pela gestão petista, posso fazer a seguinte análise em nove pontos:

1- Ao chegar à referida empresa, o suor era tanto, que não havia outra saída a não ser tomar um bom banho, ou eu não teria a mínima condição de sentar ao lado dos colegas de redação. Fato positivo: a empresa possuía vestiários para uma chuveirada.

2- A maioria das empresas na cidade de São Paulo não tem essa condição. Como seria para um funcionário, seja ele de qualquer área, se dirigir ao seu local de trabalho depois de uma longa pedalada? Tomar banho onde? Trabalhar 'ensopado' de suor?

3- Da estação Itaquera até Mooca existe um problema grave: a Avenida Salim Maluf. Ao chegar ao último estágio de ciclofaixa, na estação Tatuapé, tivemos que dividir espaços com carros e caminhões e correr o risco de um possível atropelamento.

4- Para quem pedala curtas distâncias ou que moram próximos ao trabalho, existe uma relevância que fará bem ao seu organismo e trará benefícios ao seu corpo. Contudo, a cidade de São Paulo não oferece uma qualidade de ar adequada para a prática de exercício ao ar livre. E em tempos de seca, como a que vivemos, o caso se agrava ainda mais.

5- Sou favorável a construção de espaços para que pedestres e bicicletas possam transitar. Mas sair pintando ruas e avenidas (assim como as desastrosas faixas exclusivas de ônibus) não é a melhor forma.

6- Se ele e sua equipe tivessem feito uma grande mobilização, com empresários, sociedade civil, ONGs, associações e comerciantes, teríamos um resultado, mesmo que em longo prazo, mais satisfatório, organizado e sustentável. De tal forma que não teríamos somente boas ciclovias, mas também harmonia com outros meios de transporte da cidade. Além de aplicar de forma correta os recursos públicos para tal fim, evitando gastos desnecessários.

7- Alguém sabe pedalar? Que acessórios devemos usar para andar de bicicleta numa via pública? Quais os direitos e deveres de um ciclista?

8- Ciclovias não podem começar no nada e acabar em lugar nenhum, como a que existe, por exemplo, na Av. Abel Ferreira, no Tatuapé, e que acaba na Salim Maluf. Esses espaços devem convergir com outros modelos de transportes: pontos de ônibus, metrô e trem. Os mais afetados pela falta de planejamento serão os próprios ciclistas.

9- Não se pode mais tolerar atitudes irresponsáveis de gestores públicos, ou aventureiros que brincam de administração numa cidade de 12 milhões de pessoas.

Gostamos de sempre matar o cachorro devido à peste de carrapato. Porque matá-lo é mais fácil, curar a doença torna-se um fardo. Sempre que temos uma grande oportunidade de fazer algo bem feito, fazemos de forma equivocada. E assim ciclos de vida, rios de dinheiro público e projetos bisonhos decoram a maior cidade do país.

E quer saber quando voltei a andar de bicicleta em São Paulo, depois daquela experiência? Nunca mais! Que assim seja!

 

Anderson Moriel Mattos

Jornalista

 

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