05/02/2020 às 16h07min - Atualizada em 05/02/2020 às 16h07min

Pedaaaaala, Robinho!

Léo Coutinho

O bom de ser santista é não precisar acompanhar a transmissão das partidas. Em nossa torcida, tão seleta e elegante, raros são os tipos que gritam na janela a cada gol, e inexistem aqueles que xingam os adversários ou a arbitragem. Logo, se a cidade está em silêncio, a alva e gloriosa camisa praiana está cumprindo seu destino de brilhar, jogue onde jogar. Findo o tempo regulamentar, basta conferir os melhores momentos.

É sempre bonito ver o alvinegro praiano em campo, mas de quando em vez surge uma turma que alcança o sublime. Desnecessário citar Pelé, que talvez tenha influenciado a geração atual de torcedores a preferir os melhores momentos. Mas falo da dupla Diego e Robinho, um colosso que surgiu não faz muito tempo.

Robinho especialmente era um bailarino sobrenatural. Seus dribles desafiavam a realidade. Estavam além do fenômeno, que é aquilo que se constata e pode-se explicar. Não demorou, surgiu a necessidade de uma definição nova para o que ele fazia. Não era mais drible. Robinho pedalava.

Pedaaaala, Robinho!

Pois então. Na segunda-feira soubemos que em 2019 o governo federal estourou o famigerado teto de gasto em R$ 55 bi. O mercado e a imprensa estão chamando de drible fiscal. Sabemos o que pode acontecer com um governo se, qual aconteceu com Robinho, passarem a chamar de pedalada fiscal.

Dava para encerrar por aqui. Mas vale uma nota sobre o olhar dos nossos governantes sobre as prioridades de destino dos dinheiros do Tesouro.

Quando sob Temer inventaram o teto de gasto, meteram uma exceção para capitalizar estatais que eventualmente precisassem de socorro, como Petrobrás, Eletrobrás, Caixa Econômica. Note: o investimento social, educação, saúde etc., estava submetido ao teto. Capitalização de empresas, não. Podiam chamar de emenda vitamina B3.

Daí que botamos R$ 7,6 bi (quase oito bilhões de reais) extraordinários para construir corvetas para a Marinha, ao mesmo tempo que é necessário discutir e aprovar no Congresso R$ 10 mi (dez milhões de reais) para resgatar e proteger em quarentena os brasileiros que estão na China com suspeita de coronavírus.

Noves fora o presidente da República ter cogitado driblar o resgate abandonando na China nossos patrícios, mas estar confortável em estourar o teto fazendo corvetas, quando tamanha inversão de valores se naturaliza alguma coisa está muito fora da ordem.

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