29/01/2020 às 14h54min - Atualizada em 29/01/2020 às 14h54min

Esperteza demais

Léo Coutinho
Como manda o folclore nacional, frases brilhantes são atribuídas à sabedoria da política mineira. Uma delas é: quando a esperteza é demais, vira bicho e engole o dono.

O caos em Belo Horizonte e outras diversas cidades merece atenção e ajuda do Brasil inteiro. Até porque, para além da solidariedade, ao ajudar também se aprende, e o que acontece agora por lá pode acontecer em qualquer outra cidade que, tais quais a capital mineira, retificaram rios, canalizaram córregos e impermeabilizaram o solo durante o delírio automotivo que marcou o século 20.

Outra frase brilhante que serve para entender o que acontece é do Bretch: “Do rios que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o oprimem.” Serve também como que sob medida para a raiva no olhar da Greta.

Mas o que eu queria dizer é sobre a primeira frase. Seja na vida pública ou na iniciativa privada, esperteza demais é perigosa. Há possibilidade de consertar as coisas, admitindo maus-passos, fazendo autocritica, mas até pelas dimensões que a vida pública implica, tudo se torna mais delicado.

O caso atual mais emblemático e vexatório de esperteza exagerada é o do governador de São Paulo João Doria. O Datafolha de cinco de janeiro mostrou que, dos brasileiros que julgam conhece-lo bem, 69% dizem que é pouco confiável e escassos 7% o consideram confiável o bastante.

A trajetória é impressionante. Há três anos de volta à vida pública, Doria conseguiu destruir pontes com grande parte dos aliados que nele confiaram. Destaque para o padrinho Geraldo Alckmin, o ex-governador Marcio França atacado até no plano pessoal, membros do primeiro secretariado na breve passagem pela Prefeitura e a própria população paulistana. Jair Bolsonaro é desnecessário citar, ambos se merecem.

Somos amigos de longa data por relações familiares e depois própria, inclusive profissional, e estou entre os que acreditaram que João se adaptaria à vida pública. Foi um dos maiores equívocos que já cometi.

Já na transição entre a eleição em 2016 e a posse como prefeito em 2017, notei que o candidato, que ouvia os voluntários dos grupos de trabalho para elaboração do Plano de Governo, não passava de um avatar. Aguardei movimentos mais determinantes, até porque reconheço que de bobo ele não tem nada, mas tais movimentos vieram e a relação política se tornou impossível.

De novo, o que impressiona é que ele não aprende. Para ficar em um só exemplo, agora em fevereiro será o aniversário de um ano do anúncio do fechamento da fábrica da Ford em São Bernardo do Campo, onde Doria se intrometeu e anunciou que seria comprada pela brasileira CAOA. Com o perdão do jogo de palavras, era caô, finalmente admitido pelos envolvidos no último dia 23. Dado o fiasco, o governador, esperto, tratou de se afastar.

No Valor Econômico as repórteres Marli Olmos e Malu Delgado explicam o caso.

É muito, muito grave. Negociações com tamanho impacto na vida e expectativas de milhares de trabalhadores e suas famílias, bem como no andamento do mercado financeiro, são ultra protegidas por cláusulas de confidencialidade. O governador do maior estado do país atropelar regras é gravíssimo.

Em artigo publicado hoje na Folha vem o governador exaltando o Estado Mínimo. Com todo respeito a quem reza a cartilha liberal, o lessefér radical, lembro que sem o mínimo de regulação, pactos e regras claras, freios e contrapesos, nem a selva é possível. Talvez só um deserto desses apresentados nos filmes de fim dos tempos.

Para encerrar, apesar do bananal, ainda temos algum Estado, e a Comissão de Valores Mobiliários, ou CVM, é parte dele, autarquia diretamente ligada ao Ministério da Economia. Porém, diante do caso, salvo engano, se mantém em silêncio.

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