27/05/2014 às 17h32min - Atualizada em 27/05/2014 às 17h32min

A falta que faz

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Isabela Gomes

           Vou agora contar a tu, leitor, uma história, de certa forma real. Juliana era menina franzina, de cabelos lisos e espinhas no rosto. Vivia pelos cantos sozinha. Não se enturmava com ninguém e quando tentavam se aproximar, ela logo repelia. Pois, vivia na escola só para estudar, ia para casa, e la passava seus dias, enfurnada, como num tédio eterno. Perdera o pai cedo demais. Talvez, cedo demais até para se lembrar dele. Pobrezinha!
            A mãe, mulher de fibra, muito ranzinza. Trabalhava como se fosse lavadeira, tinha dores nas cadeiras, mas era de tanto lecionar. Tinha enxaquecas ao fim do dia, por causa do barulho da criançada. Talvez até fosse boa mulher, carinhosa no fundo, mas seus alunos não haveriam de conhecer esse lado já que ela vivia a esbravejar.Era boa mãe sim, mas via-se no olhar de ambas, mãe e filha, a tristeza. Talvez fosse mãe carinhosa, ninguém sabia, ninguém entrava nas particularidades da família. Estava a ter com uma amiga certo dia e ela, que sabia um pouquinho mais da vida delas, explicou-me: Veja, se tens pai e mãe sabes bem como são!Preocupados com futuro, querendo sempre o melhor. Tem horas que eles dão bronca, são bravos, te cobram, não ? – eu disse que sim, com toda certeza – Mas não tem horas que dão risadas juntos, que fazem brincadeiras e riem em família? – sim, como não ? – Pois!Para Juliana falta-lhe a parte dos risos!
            Pobre! Faltava-lhe os risos, as brincadeiras, os sábados de tarde passeando, os domingos de calor no descanso. Faltava-lhe a quem contar como foi seu dia, ouso dizer que faltava amor. Talvez não faltasse realmente amor; a mãe é que não conseguia passa-lo!
            Juliana talvez pensasse que todos fossem como a mãe. A irmã, que odiava a tudo e todos, como todo bom adolescente, saia de casa, se revoltava, desobedecia e não ligava. Simplesmente entendeu o que quis entender, ignorou a mãe, coitada, que tudo fazia era lecionar e lecionar.
            A mãe trabalhava como se nada fosse mais importante nessa terra. Tinha lá seu salário, não tão mirrado nem tão abastado. Dava de comer e vestir a suas meninas. Não ostentava luxo algum, mas o necessário nunca faltava. Bom, faltar, faltava...faltava o amor! Faltava os risos, faltavam as conversas, confidências. Por fim, Juliana não teve amor da mãe. A coitada da mãe não sabia demonstrar, Juliana não sabia receber. E ficou-se assim, uma vida desgostosa, faltando pequenos prazeres, sem pai e sem amor de mãe. Juliana jamais quis o luxo. Ficava então, quieta pelos cantos, não se aproximava de ninguém.Lia seus livros pelos cantos, ligava uma música e se perdia em sua melodia. Encostava-se na parede e la ficava. Podia passar horas sem dizer nada, sem sorrir para ninguém. Não tinha o que mais queria, e, afinal, que mais ela poderia querer,além do normal, oras!

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