16/05/2014 às 18h29min - Atualizada em 16/05/2014 às 18h29min

1938

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Isabela Gomes

            Em um de meus momentos de epifania enquanto ouvia Chuck Berry e companhia, fiz uma reflexão importante. Concluí, finalmente, que eu deveria ter nascido em 1938. Seria o ano perfeito! Papai já  veio com suas bravezas: “Está louca menina, aquela época era uma pobreza desgraçada!” E mamãe limitou-se a rir. Vendo só pelo lado positivo das coisas, viver no passado devia ser muito mais legal!
            Eu nasceria em 38, já que tenho essa paixão pelos anos 30. Os anos 40, sou indiferente, mas, eu seria criança então continuaria a não importar, já que passaria meus dias a brincar com bonecas de pano. Nos digníssimos anos 50 eu seria adolescente! Saias rodadas, lenço no pescoço, óculos “gatinho” e os meninos usando jeans e jaquetas de couro! A vida seria o Grease todo fim de semana! Nos anos 60 eu provavelmente já estaria casada, pelos padrões da época. Andaria por aí com meus vestidos de bolinha e poderia ter três ou quatro pimpolhos, já que era normal ter muitos filhos. Nos anos 70 e 80 eu já seria um pouco mais velha, mas não velha o suficiente para não curtir a música da época! Ir no show do Tim Maia e tal...E por fim, nos dias de hoje, eu seria uma velinha. Com certeza estaria cheia de dores nas pernas e de rugas no rosto. Porém, essas dores seriam de tanto bater perna por aí e as rugas, de tanto sorrir!
            Eu teria que viver a horrível ditadura, mas, que seria melhor do que comprar um livro de Lobato como um lançamento?Assistir Chaplin no cinema! Ou ainda, ouvir os novos sucessos de Adoniran, Noel, Ray Charles! Quem sabe eu andaria de bonde? The Beatles seria uma nova sensação e ainda nem falei da revolução!
            Veja, hoje em dia esta tudo pronto, tudo fácil. Sem falar que as coisas evoluem e mudam rápido de mais! Em um mês criam um celular, mais um mês aqui e esse celular tira foto, um mês ali e ele toca música, um mês acolá e já é um pequeno computador de bolso! É chato! Vovó chega a contar que algumas pessoas não acreditavam na televisão. Um negócio que você vê pessoas dentro? Só poderia ser loucura! Apenas os ricos tinham e hoje você vê uma  em cada esquina. Outra vó conta que foi na praia duas vezes na vida e hoje, ir à praia é coisa corriqueira, de fins de semana ou férias. Quase obrigatório no Reveillon.
            Quem viveu essa época viveu a evolução do mundo! A evolução das roupas, da música, do cinema, da tecnologia! Vovô me conta que, depois do telefone ele pensou “ agora não tem mais o que inventar”. Isso, pra mim, chega a quase ser cômico!
            Imagine só a delícia que seria ver a invenção do videoclipe( que começou com os Beatles, para quem não sabe) ou aquela loucura que chamavam de computador. Tudo talvez fosse uma grande expectativa e, cada pequeno acontecimento, uma coisa imensa de se contar para o resto da vida. Pois! Se só foi na praia duas vezes na vida, é algo memorável de deixar saudades. Talvez eu recebesse cartas de amor! Teria o frio na barriga de receber um bilhete. Hoje, nem e-mail de amor tem, porque e-mail já esta ultrapassado... SMS de amor, quem sabe ?
            Eu poderia escrever crônicas ou poemas gostosos sobre como é bom escrever e a relação entro o papel e a pena. O que posso dizer hoje sobre digitar ?
            Eu não teria algumas liberdades, como andar de calça por aí e minha liberdade de expressão acabaria na esquina. Nem palavrões eu poderia soltar (que aliás, não solto, mãe.) Ouvir discos na vitrola, ouvir novela no rádio, ter algumas crenças esquisitas, porém, incontestáveis.
            Leitor, de forma alguma digo que a evolução que temos, toda a nossa tecnologia de hoje em dia seja ruim, mas, que viver antes devia ser muito legal, ah, isso é verdade e para mim, incontestável.

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