12/02/2014 às 12h29min - Atualizada em 12/02/2014 às 12h29min

A Porta dos Fundos da Esperança

Um aspecto que alimenta tal descontentamento está na falta de bom senso das operações militares internas, i.e., estaduais.

Caio Manhanelli

Estupefato com a coincidente reincidência da referência nos comentários feitos pelos profissionais do portal de humor @PortaDosFundos, em seu canal do youtube Portaria, ainda mais coincidentemente tais comentários surgiram nas conversas (entre internautas e equipe do programa) sobre dois vídeos que tem como tema uma crítica à policia militar, e mais estupefato ainda por serem referência à TV que há poucos dias foi palco de uma crítica contra o mesmo aparelho estatal. A diferença é que a crítica humorística é muito mais inteligente do que a desinformação propagada pela rainha das mil e uma noites.

Uma frase atribuída à Silvio Santos é citada por um internauta, no debate sobre o sketch Bala de Borracha de 02/12/2013 (Portaria 16 de 08/12/2013), “nesse país tem povo pra tudo”, e tem mesmo, após vermos a repercussão do tipo “ame ou deixe” da polêmica “opinião” da “jornalista” Rachel Sheherazade (do SBT), veiculada um dia após o sketch Dura (03/02), comentado no vídeo Portaria 25 (09/02) com uma (in)feliz frase do líder do grupo humorístico ao narrar a reação dos expectadores da cena que estava sendo gravada, viciados em crack que estavam vendo dois atores vestidos de policiais apanhando de outros dois atores vestidos como pessoas comuns, ou cidadãos de bem, talvez diria a rainha dos contos. Um meme tem muita força e se apresenta de forma tão sutil que não notamos facilmente...

O uso indiscriminado de forças repressivas por políticos gerou esse quadro onde tanto discursos da direita mais maniqueísta quanto da esquerda mais descomprometida, de um espectro ao outro do campo ideológico, propagam um incomodo inconformado com as forças militares (ou policiais) estaduais. Para esse tipo de “jornalistas” (que eu reluto em chamar assim Jabor, Sheherazade e cia.) o uso da violência é justificável inclusive por cima da constituição. Para os humoristas o abuso repressivo geram ideias para sátiras convenientes do estado lastimável da segurança pública no país (e deixo para outro dia as Lagostas maranhenses e presidiários matáveis).

Um aspecto que alimenta tal descontentamento está na falta de bom senso das operações militares internas, i.e., estaduais. Primeiro que temos “exércitos” dos executivos estaduais para garantir a segurança dos cidadãos, mas para além, sua função é “garantir a soberania interna do país”. Só que ter um aparato militar é transformar qualquer cidadão em alvo de uma guerra interna. Porém, guerra deveríamos estar travando com outro país, não com nós mesmos... Segundo, e corolário do primeiro, o uso abusivo de forças militares contra qualquer coisa que estremeça as bases do poder já estabelecido (dos políticos) faz com que a população se sinta tão insegura andando em uma avenida com polícia como em uma rua escura sem policiamento, sem contar nos abusos generalizados que não são comandados por políticos, mas faz parte mesmo dessa lógica de inimigo/guerrilha da atuação policial em periferias de grandes cidades ou dos estados.

Só há denominador comum para os discursos divergentes: o mercado, pois é a polêmica que vende opiniões jaborianas como a proferida no jornal do SBT, tanto quanto as sketch bem sacadas dos humoristas, de resto, não há solução. E realmente, o humor vence com sua inteligência, só um milagre pode resolver tal situação, e tal milagre, só se sair pela “porta dos fundos da esperança”, pois nenhuma atitude política direta e às claras será aceita ou terá bons frutos, seja a desmilitarização das polícias, seja o aumento do aparelho legal/repressivo, indo contra tudo que foi construído de democracia nesse país.

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