21/08/2012 às 10h45min - Atualizada em 21/08/2012 às 10h45min

O Vingador do Futuro

Nada de seres extraterrestres, dessa vez o clima é dividido entre a Federação Britânica e a Colônia.

Jacqueline de Lima Gastão


Nas memórias insanas e fantasiosas de Dom Quixote, a vida se faz valer quando vivemos as aventuras de maneira intensa, mesmo que elas sejam apenas frutos da imaginação de uma consciência inexistente que vai além das nossas próprias capacidades físicas. Com essa premissa de sair do real e desembarcar no universo avatar, Douglas Quaid (Colin Farrell) aposta em uma proposta tentadora de sair da sua rotina vazia e frustrada em busca de um mundo de verdade, mesmo que não seja feito de memórias reais.

 

Não há como falar sobre “O Vingador do Futuro” sem lembrar que esse foi um dos ícones da cultura Pop que marcou os anos 90, independente das suas qualidades ou defeitos. Arnold Schwarzenegger com seu jeitão bruto, hilário e marrento eternizou o personagem do original que possuía bom roteiro e críticas a diversos elementos da sociedade, discutidos até os dias de hoje. As comparações são mais amplas quando observamos fragmentos no remake coletados de Star Wars ou Blade Runner, mas se fomos citar todos os filmes de ficção científica que copiam certas características de outros, ficaríamos horas conversando.

 

Nada de seres extraterrestres, dessa vez o clima é dividido entre a Federação Britânica e a Colônia. Duas realidades distintas e desiguais que são o que restou do mundo futurístico. Todo aquele universo pitoresco, psicodélico e bizarro de Marte é esquecido e dá espaço para a visão que novamente coloca em cheque disputas entre uma parte favorecida e outra não. Colin Farrell encara outra vez o desafio de protagonizar um papel já presente no imaginário das pessoas e apesar de alguns escorregões, ele consegue driblar bem o vai e vem que é característica fixa de um personagem que não sabe ao certo a verdade depois de descobrir que a sua memória pode ser a sua maior inimiga.


Kate Beckinsale tem sua presença bem mais veloz e marcante do que a sensual Sharon Stone, mas peca pelos exageros com muita expressão corporal e roteiro pouco trabalhado. Certas vezes parece até uma extensão do seu papel em Anjos da Noite.

 

Jessica Biel ofereceu mais a sua beleza do que realmente uma atuação expressiva, mas isso não diminuiu a amarração, pois sua personagem não pretendia receber mais holofotes além do que o demonstrado.

 

A técnica utilizada nessa versão merece destaque. Os efeitos são ótimos, salvo alguns exageros em pirotecnia. O movimento e os cortes da câmera são frenéticos e o resultado é muita ação desenfreada em uma corrida alucinante de perseguição.

 

Não sou tão saudosista a ponto de colocar o remake degraus abaixo do original, porém, o diálogo poderia sim ser mais bem aproveitado. Algumas falas chegam a incomodar por tamanha falta de ligação e coerência, tornam-se repetitivas, lentas, o contrário do que as cenas demonstram.

 

A principal ausência foi a dúvida acerca da identidade real ou virtual do protagonista, porém nada que incomode, afinal, é óbvio que esse filme não pretende ser nenhum Matrix e a disparidade de realidades virtuais é evidente.

 

Certos elementos apareceram para construir uma ponte entre as duas gravações sem nenhuma outra justificativa iminente. Mas, isso não faz do filme melhor ou pior. O ponto fraco é a despretensiosa direção de Len Wiseman que exagera em efeitos de ação e esquece a subjetividade e o próprio ritmo.

 

O filme atende ao que se propõe: bons minutos de entretenimento e uma reflexão acerca dessa realidade desconexa que o futuro nos traz. Basta uma nova maneira de mudar o próprio organismo humano e implantar poderes cibernéticos, para o homem perder o melhor de si, sua memória, sua própria história. Em tempos de modernidade as conspirações são frequentes e os métodos da nova e mascarada lobotomia são aprimorados secreta e perversamente. Quanto mais o homem busca o poder, mas esse estará longe do próprio homem. A memória que nos faz produzir artifícios para a evolução é a mesma que pode ser expurgada para agir contra nós mesmos.

 

Um filme bom, que não perde pontos por falta de características presentes no original. Isso não seria justificativa coerente, se fosse para ser igual, não precisaria ser produzido novamente.

 

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