02/07/2015 às 17h50min - Atualizada em 02/07/2015 às 17h50min

Tania Alice

Performer

Thiago Santos

 Thiago Santos: Quem é o ser humano Tania Alice?

 Tania Alice: Somos constantemente atravessados por forças, desejos e acontecimentos que nos transformam, o que torna difícil uma definição definitiva... Já fui tantas e são tantas, as vidas. Tento, na medida das minhas possibilidades, desenvolver amor e compaixão, criando espaços onde o amor se torna possível e as relações e os espaços regidos por potências de afeto e alegria.

 

 A arte lhe veio em qual momento e através de quais vias?

 A arte sempre foi para mim um meio de sobrevivência neste mundo. Quando era criança, eu olhava para o mundo e pensava que ele poderia ser tão mais divertido e menos sofrido... Depois de muito tempo, o processo criativo se tornou realmente criativo, saindo dessa idéia de sobrevivência para se voltar em direção dos outros e da escuta das necessidades compartilhadas, buscando construir uma ecosofia que possa servir a sociedade e o mundo. Com o tempo, fui entendendo minha prática artística como prática espiritual. Busco desenvolver uma arte que transforme as relações regidas pelos padrões tristes promovidas pelas estruturas de poder e a mídia em relações construtivas, afetivas e geradoras de felicidades, seja com humanos, plantas ou animais. Trabalho em solo e no Cole tivo de Performance Heróis do Cotidiano, do qual sou diretora artística e que realiza intervenções urbanas desde 2009 e agora na criação da plataforma Performers sem Fronteiras.

 

 Consegue lembrar as emoções que lhe tomaram nos momentos antes, no ato e, pós, primeira apresentação?

 Não fazendo teatro ou show, não faço apresentações. Fujo de estruturas que promovem apresentações e busco gerar presença, compartilhamento ao invés de uma estrutura de poder onde um é o artista e o outro o espectador, dentro de uma relação padronizada proposta pelo artista. Busco gerar dispositivos onde podemos criar juntos, misturando arte e vida e borrando fronteiras.

 

 O que significou para você em matéria de futuro os olhares tomados de admiração por parte do público diante um espetáculo proporcionado por você?

 Essa pergunta tem a ver com a precedente. Não busco admiração por algum virtuosismo meu. Inclusive, creio que a liberdade artística consiste em não buscar admiração ou validação nos olhares dos outros. Busco empoderar o outro para que ele se veja de forma valorizante. Como artistas, temos o poder de contribuir a transformar o nosso próprio olhar e o olhar do outro sobre si e o mundo. Tento atuar nessa direção, criando espaços que possam promover a cura do outro e minha pessoal. Neste processo, desenvolvi o conceito de PARC (Performances de Arte Relacional como Cura), que incluem as pesquisas do Somatic Experiencing de Peter Levine, voltado para a cura do trauma, dentro dos processos performáticos, para que possamos nos curar os uns os outros. Desenvolvi várias performances nesse sentido.

 

 Num linguajar popular! O que é ser, ou o que faz um performer?

 Ele cria pequenas utopias temporárias e efêmeras nos espaços domésticos, rurais e urbanos. Ele se entrega ao mundo para descobrir com o outro o prazer de voar em conjunto. Em outras palavras e em linguagem mais popular ainda, ele beija o mundo na boca.

 

 Interface entre artes visuais e artes cênicas?

 A performance se apresenta como uma linguagem interface entre as artes cênicas e as artes visuais, mobilizando os elementos das diversas linguagens que podem servir ao propósito da ação performática. As artes visuais saíram do cubo branco (galeria), o teatro saiu da caixa preta (edifício teatral) para inventar o cotidiano. A performance é um processo de arte/vida, que busca  nas diversas linguagens artísticas elementos que ajudem a formular as perguntas que só poderiam ser feitas dessa forma, com aquela linguagem híbrida.

 

 Seu trabalho se apresenta como um cruzamento entre projetos artísticos, terapêuticos e espirituais?

 Sim, meu trabalhos se constitui como um cruzamento entre projetos artísticos, terapêuticos e espirituais, dentro do conceito de PARC (Performances de Arte Relacional como Cura), que desenvolvi trabalhando com a Experiência Somática de Peter Levine. Nos últimos anos, no Brasil, surgiram muitos projetos de Arte Socialmente Engajada, projetos que não possuem um virtuosismo particular mas partem dos desejos da comunidade. Visto de fora, podem ser projetos artísticos ou sociais. As PARCs incluem a parte terapêutica nesse processo: visto de fora, pode ser uma terapia, uma ação social, uma performance, tanto faz. O que importa é a qualidade da relação instaurada.

 

 Suas qualificações e, como cada uma delas cooperaram em prol de sua arte?

 Tenho uma formação acadêmica na França (Graduação, Mestrado e Doutorado em Artes) e um pós-doc de encenação contemporânea aqui no Brasil, o que constitui parte da formação, junto com a formação em Somatic Experiencing, que estou terminando agora. Ao lado disso, minha formação foi de muitas viagens, de vida mochileira em muitos países, de muitos empregos diferentes e principalmente de relacionamentos humanos e espirituais que me ensinaram o que me parece realmente importante e o que constitui a essência do que me mova a fazer meu trabalho como artista.

 

 Lugares fascinantes não lhe faltaram para que sua arte fosse apresentada. E o que cada uma delas acrescentou no todo de seu caráter?

 Apresentei nos mais diversos lugares do Brasil como no Museu de Arte Contemporânea MAC/Niterói, Oi Futuro Rio de Janeiro, na Mostra Internacional de Artes do SESC São Paulo, no Centro Cultural Vergueiro de São Paulo com os Heróis do Cotidiano e em diversas Universidades e, de forma internacional, entre outros, no Museu de la Ciudad de México onde realizei uma exposição com o artista Álvaro Villalobos, no Califórnia Institute of the Arts onde fui artista e professora convidada, no Side Street Project e The Art Walk (Los Angeles), na International Miami Performance Festival e Art Fair Miami (USA), na New York University, no Glasshouse ArtLifeLab e no Grace Exhibition Space (New York), no Festival International Festival de Arte Acción y Intervenciones da República Dominicana), no espaço Gruntaler9 em Berlin, em La Friche Belle de Mai/Asile 404 na França, na Université Libre de Bruxelles, Tarasloft, Zsenne ArtLab and Wolcke (Bruxelas), na Colombia, Argentina, entre outros. Foram muitas viagens, muitos encontros que me ensinaram principalmente a ver que o humano é igual em todos os lugares. Somos movidos pelo amor, o medo, a raiva, o apego, as emoções básicas, digamos. Se comunicamos nesta base, o contexto cultural não faz diferença.

 

 Todos os seus esforços em nome da arte foram compensados por meio de várias premiações? Em matéria de futuro o que tais conquistas podem acrescentar no quesito inspiração?

 Recebi prêmios sim, como o Prêmio de Montagem da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará (2007), o Prêmio Jovens Artistas do MEC (2009), o Prêmio Funarte Artes Cênicas nas Ruas (2010), o Prêmio de Circulação do Estado do Rio de Janeiro (2011), o Prêmio do Júri Popular do Festival de Cinema de Washington para vídeo-performance, a bolsa Capes/Fullbright para professora e artista visitante no Califórnia Institute of the Arts ou o convite de ocupar a cátedra de cooperação international da Universidade Livre de Bruxelas, entre outros, mas acredito que isso sejam oportunidades para poder trabalhar em diversos lugares e com parcerias diferentes. Não acredito em prêmios como maneira de dizer se um trabalho tem valor. Um premio não me inspira. Tem outro tipo de premiação muito mais valiosas que não esquecerei nunca, como pequenas mudanças que aconteceram na vida das pessoas apos a performance e outras coisas mais...

 

 Atualmente você leciona? Como sua  “alma”  se sente diante a expressão pedagógica para alunos que viverão as maravilhas desta arte responsável por proporcionar alegrias que você conhece tão bem?

 Sou professora associada da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), onde dou aulas de performance na Graduação e na Pós-Graduação, orientp projetos de Mestrado e Doutorado e trabalho como artista-pesquisadora no NEPAA (Núcleo de Estudos das Performances Afro-Amerindia). Não são somente maravilhas e alegrias, a performance é um desafio para qualquer um. Performar significa encarar a vida e a morte de forma direta. Para mim, lecionar performance não consiste a passar técnicas ou metodológicas, mas bem mais em mostrar pistas, abrir perspectivas, potencializar o outro... No fundo, dar aula de performance consiste basicamente em ajudar as pessoas a terem menos medo de olhar para si mesmo.

 

 Para finalizar nos fale dos seus projetos atuais e futuro!

 Nos últimos anos, realizei The Bed Project em diversos países do mundo. O projeto consiste em colocar minha cama em espaços públicos ou privados. As pessoas podem entrar na cama e passar comigo nela o tempo que querem. Nos espaços públicos, falamos de remoções, de diversas questões ligadas a moradia, assuntos mais sociais. Nos espaços privados, junto experiência somática com a performance. As pessoas tiram a roupa e se juntam a mim na cama, conversamos, compartilhamos... A cama é um território onde se projetam as fantasias, os desejos, onde se vive a intimidade da troca. Atualmente, junto com outros artistas como Diego Baffi, Diogo Rezende, Marcelo Asth, Renata Teixeira, Gilson Motta, entre outros, estamos elaborando a Plataforma “Performers sem Fronteiras”, que, como Médicos, Palhaços ou enfermeiros sem Fronteiras, visa a atender diversas pessoas em situação de emergência ou de trauma com performances. Neste sentido, estou atualmente coletando abraços de 5, 10 ou 15 minutos aqui no Brasil para levá-los ao Nepal para as vitimas dos terremotos que receberão o abraço do remetente junto com uma foto. Outra foto será tirada do destinatário e enviada ao remetente. Gostaria, depois de voltar do Nepal, de realizar uma exposição com as fotos das pessoas que se abraçaram em algum espaço de arte contemporânea.Também gostaria de realizar mandalas de land art com a população lá, bem como um cinema ambulante, entre outras coisas. A opção é por realizar um atendimento de emergência poética para que possamos inventar novas formas de habitarmos juntos o mundo.

 

 

 

Link
Tags »
Relacionadas »
Comentários »