09/06/2015 às 11h32min - Atualizada em 09/06/2015 às 11h32min

Mia Malafaia

Escritora; nada será impossível ao ser humano quando este usar de sua humanidade para superar os desafios

Thiago Santos

 Quem é o ser humano Mia Malafaia?

 Eu sou uma pessoa que fez das próprias dores algo que pudesse servir de ajuda a outros. Foi um meio que encontrei de expurgar aquilo que me entristecia, devido ao abuso que sofri na infância e as violências sofridas na vida adulta. Sinto-me feliz em poder dizer às pessoas que é difícil, mas não é impossível dar a volta por cima. Como dizia Drummond: “ A dor é inevitável, o sofrimento é opcional!”

 

 Quando se deu conta que o encanto para você também estaria na arte da escrita?

 Escrever sempre foi um meio de exteriorizar os meus sentimentos. Sempre desejei ser escritora, era um sonho que consegui tornar realidade.

 

 O que  sentiu quando folheou seu livro pela primeira vez?

 Foi como segurar um filho… rsrsrs... uma sensação ímpar.

 

 

 

 

 Sua obra “Cara de Leão” teve como ponto de partida quais emoções?

 Posso dizer que foi em primeiro lugar a dor. Por muito tempo relutei em escrever algo tão forte como a história da “Alice”. Não é fácil falar de algo que você sofreu na pele também, porque você pode deixar que os seus sentimentos sejam mais fortes que  os sentimentos da personagem. Embora seja uma história baseada em fatos reais, trata-se de um livro que fala das emoções de outra pessoa. Rir e chorar, sentir dó, torcer por alguém que você sabe exatamente como aquela pessoa se sentiu é algo delicado e temos que ter cuidado.

 

 A personagem principal do livro tem como pano de fundo a libertação do artificialismo quanto aos padrões estabelecidos?

 Sim, Alice é antes de tudo uma sobrevivente. Quebra paradigmas. Ela consegue ser menina mesmo diante de todas as atrocidades, mas tem dentro de si mais força do que realmente acredita possuir. As regras para ela são definidas apenas como base para serem quebradas.

 

 

 

 

 Alice é o reflexo da verdade firmada e imutável de que para o ser humano no processo do viver munido do ato de superação, nada lhe é impossível?

 A Alice é uma resposta para a dor de milhares de crianças que como ela sofrem ou sofreram caladas a humilhação de um  abuso sexual. Ela é um exemplo de força e um alerta também. Temos sempre que ter em mente que amanhã é outro dia e que podemos, sim; dar a volta por cima até mesmo de coisas deste tipo.

 

 Você teve contato com algum leitor que encontrou em sua obra a inspiração que buscava devido toda uma necessidade?

 Sim. Tenho recebido muitos e-mails, alguns pedidos de ajuda também. É incrível como temos casos de abuso sexual dentro das famílias ainda hoje em plena era digital, com tantas informações e com o mundo globalizado. Parece que quanto mais modernizado o mundo fica, menos civilizado ele é. Muitos querem saber onde denunciar, outros querem ajuda psicológica. Alguns apenas querem ser ouvidos. Tenho alguns relatos no blog www.miamalafaia.blogspot.com em Depoimentos, onde por questões de privacidade apenas oculto os nomes e locais dos acontecimentos.

 

 Um ser humano que vive mazelas diversas encontrará em sua obra inspirações que servirão para?

 Acredito que o livro “Cara de Leão” seja um instrumento de ajuda, com certeza. Cada vez que faço uma palestra e alguém na platéia diz já ter lido, sempre pergunto o que guardou para si e as respostas são sempre positivas.

 

 

 

 

 Um bom momento no ano de 2013?

 Com certeza foi a premiação na Áustria. O reconhecimento é algo maravilhoso e faz com que eu tenha mais gana de seguir em frente e escrever mais e assim ajudar mais pessoas.

 

 O que representa para você todas essas conquistas?

 As conquistas são maravilhosas não há dúvida disso, mas também mostram o peso da responsabilidade de fazer mais e melhor. Alcançar mais pessoas, fazer com que se empoderem e possam romper os ciclos da violência. Os títulos são uma honraria, mas também são um lembrete de que sempre podemos fazer um pouco mais por quem precisa.

 

 Embaixadora da Paz?

 Receber o Título de Embaixadora da Paz foi na verdade um presente. E como precisamos de paz dentro e fora de nós… A humanidade precisa reaprender a solidariedade, acredito que assim poderemos ajustar a nossa sociedade.

 

 

 

 

 Radialista e palestrante?

 Vinte anos se passaram nestas profissões. O rádio me deu a certeza de que poderia ajudar muitas pessoas com assuntos pertinentes, com clareza de ideias, com debates e momentos de atenção aos ouvintes. As palestras me deram a convicção de que estava no caminho certo para levar orientação e palavras de consolo. Cada vez que alguém se aproxima e relata algo que nunca antes disse à ninguém, sinto-me na obrigação de ouvir e ter o que dizer em reposta, de forma respeitosa e amiga. É doloroso não poder dar uma resposta que alivie o coração de alguém. Nessas horas dou um abraço. Acho que alivia de certa forma.

 

 Para finalizar nos fale dos seus projetos atuais e futuro!

 De imediato será lançado o livro Entrelinhas  na Bienal do Rio em setembro, onde faço um apanhado de textos e poemas que arrisco de vez em quando.

 Vem aí o Maria, Brasileira. Um livro que demorou sete anos para ser finalizado e que retrata a violência doméstica pelo prisma das vítimas e que tem em seu contexto explicações dentro da Lei Maria da Penha. Aguardem.

 Contatos para palestras: 

miamalafaia@gmail.com / caradeleaoolivro@gmail.com

 Obrigada.

 

 

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