05/07/2018 às 13h21min - Atualizada em 17/07/2018 às 13h24min

Jalue: o menino de 11 anos que já é uma divindade budista

O pequeno lama já estava na cúspide para um grande momento. Por toda a semana, o monge de nove anos - que muitos budistas tibetanos acreditam ser uma reencarnação divina - tinha se preparado para seu primeiro discurso público. Finalmente, em uma noite chuvosa em uma igreja de Saint. Paul, no estado de Minnesota, nos EUA, Jalue Dorjee encontrou uma fila de câmeras e centenas de rostos aparentemente felizes.

Ele sentou sozinho em um tablado decorado no centro da comunidade tibetana local, cujo largo retrato de Dalai Lama sorrindo se destacava ao fundo. Então, deu um grande suspiro e procurou olhar por toda multidão. Em voz limpa, começou a ler alto. "Eu estou muito honrado pela presença de vocês hoje aqui e pelo apoio da comunidade tibetana em Minnesota...".

Para a fé budista, ele não é apenas um garoto, mas um ser iluminado. É também um pioneiro: os pesquisadores budistas dizem que ele é o primeiro lama nascido em Minnesota e um dos poucos encontrados no Ocidente. Jalue, porém, parece não se incomodar com a pressão de cumprir a promessa de ser um grande lama um dia.

"Pode ser fácil se eu conseguir manejar tudo isso", disse ao jornal estadunidense Star Tribune.

Os lamas são descobertos na tradição budista tibetana por meio de processo conhecido como divinização. Os sonhos também são importantes meios de identificar lamas reencarnados. Nesse caso, enquanto a mãe de Jalue estava grávida, um respeitado lama indiano que tinha visitado Minneapolis teve um sonho sobre a criança que ela carregava. Ele, então, conduziu uma divinização que lhe convenceu de que o bebê era uma reencarnação do mestre espiritual budista.

Depois que Jalue nasceu, vários lamas importantes na Índia se debruçaram sobre a questão de quem ele era. A sétima encarnação de um alto lama tinha morrido na Suíça poucos anos antes, e os líderes budistas tibetanos estavam procurando por sua aparição em alguma parte do mundo. Apesar de ser incomum um lama nascer no Ocidente, o pequeno menino de Minnesota era um candidato forte.

Em janeiro de 2009, uma carta chegou à casa de Jalue com o selo do grande líder espiritual da diáspora tibetana: o Dalai Lama. Nela, o mestre oficialmente reconhecia Jalue como uma reencarnação da mente, corpo e espírito do lama conhecido como Taksham Neuden Dorjee. Em uma segunda carta, meses depois, Dalai Lama conferiu sobre Jalue seu nome formal de lama: Tenzin Gyurme Trinley Dorjee.

Começava a odisséia espiritual do garoto que agora tem 11 anos e atrai milhares de tibetanos do país todo, que compram bilhetes aéreos, se hospedam em hotéis e lotam os restaurantes das duas principais cidades do estado, Minneapolis e Saint Paul, a cada novo grande momento anunciado pelo pequeno lama.

Por agora, sua educação religiosa acontece em Minnesota: ele acorda antes das 6 da manhã e encabeça a família em uma sala de orações. Senta-se com seu pai e lê em voz alta as escrituras budistas. Textos sagrados ocupam as paredes do dormitório, apesar de Jalue ter aprendido muitos deles de cabeça. Seu pai, Dorje Tsegyal, o ouve atentamente, gentilmente corrigindo quando necessário.

Os dois têm um acordo: para cada livro memorizado pelo jovem lama, ele ganha um Pokémon Card de presente. Hoje, ele tem 258 cartões, segundo uma reportagem do site Buddhist Door.

Quando ele finaliza suas orações e leituras diárias, é hora de ir à escola. Jalue frequenta o terceiro nível em um colégio público da cidade. Ao contrário dos centros tibetanos, na sala de aula ele senta no chão ao lado dos seus colegas, como se fosse um deles. Se o menino tivesse nascido na Índia, ele vestiria suas vestes marrons e vermelhas o tempo todo, mas no Ocidente, como elas não são comuns, ele usa camisetas e calças com as mesmas cores.

Jalue parece entender quem é. Ele não hesita quando seus colegas de sala lhe perguntam sobre isso: "Sou um lama", responde. O menino surpreendeu o ator estadunidense Morgan Freeman, protagonista da série The Story of God, da TV do país, que lhe acompanhou durante um dia na escola. Ao mesmo tempo que Jalue lhe contava sobre as escrituras sagradas, lhe revelava que gosta de comidas fast-foods e mangás.

No entanto, a vida do pequeno lama está longe do normal: em adição aos seus estudos matinais das escrituras, ele tem aulas de línguas tibetanas e, aos finais de semana, treina seu mandarim. São dois dos quatro idiomas que ele estuda.

Sua agenda frequentemente é cheia porque as expectativas são grandes, segundo seus pais. Ele está em uma luta contra o tempo porque, seguindo as crenças dos budistas tibetanos que ele é uma reencarnação do lama, deve continuar a vida onde seu predecessor - a sétima encarnação - morreu.

"Ele ainda é jovem e é difícil fazer muitas coisas por si só", disse Thinly Woser, ex-presidente da Tibetan American Foundation of Minnesota, uma espécie de célula da religião na cidade. Woser também é um dos professores do menino. "Ele está progredindo muito bem com os rituais e as leituras, mas com meditação profunda ainda há muito por vir", completou.

"Ele sabe que tem uma grande responsabilidade e está tentando entendê-la", finaliza Wose.

Há ainda a dificuldade de ser um lama no Ocidente, de acordo com Thupten Dadak, um dos últimos tibetanos que escolheram Minnesota como casa. Ele é largamente responsável por ajudar a assentar milhares de tibetanos no estado. Hoje. Minnesota é o lar da segunda maior comunidade oriunda do Tibete nos Estados Unidos. No Brasil, um dos maiores contingentes de budistas tibetanos fica em São Lourenço, na Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais.

"Um jovem monge nunca aconteceu em Minneapolis", disse ele ao Star Tribune. "Ele é um exemplo de como as jovens gerações deveriam viver. É nossa raiz para a próxima geração", finaliza Dadak. Enquanto isso, ele segue colecionando orações e cartões Pokémon.

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