17/07/2017 às 21h54min - Atualizada em 17/07/2017 às 21h54min

A política e os malfeitores da vida pública

Ricardo Viveiros & Associados

Reinaldo Dias

O Brasil está vivendo um dos seus momentos historicamente mais significativos. Um ex-presidente condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, um presidente em exercício do mandato denunciado por corrupção, ex-ministros e deputados poderosos presos, inúmeros grandes empresários presos e condenados, milhões de reais desviados pela corrupção devolvidos aos cofres públicos. Estes são sinais da profunda transformação que se está operando no país. Só quem não aceita isto são os envolvidos e seus aliados, que insistem na manutenção das velhas práticas.

Neste momento que o país atravessa constata-se uma certa dificuldade de se estruturar um discurso capaz de destacar a importância dos fatos que estão ocorrendo e que afetam a vida de milhões de brasileiros, além de influenciar a evolução dos acontecimentos nos países vizinhos.

O histórico militante político, Antônio Gramsci, fundador do Partido Comunista Italiano, tem em seu livro de memórias do cárcere uma frase que pode contribuir para a compreensão do momento que vivenciamos. Dizia ele que “a crise consiste precisamente no fato de que o velho morre e o novo não pode nascer. Neste intervalo ocorrem os fenômenos mórbidos mais variados”.

A ideia contida na frase expressa bem a situação atual que vivemos, pois já se descortina no horizonte uma nova eleição presidencial que pode representar o enterro das velhas ideias e práticas na política. Entretanto, os velhos hábitos ainda persistem e buscam se perpetuar, difundindo falsas narrativas que alimentam uma polarização artificial que contribui para manter a sobrevivência de uma plataforma política anacrônica e que contraria os interesses da maioria dos brasileiros.

Essa é a realidade da atual crise. Para superar as velhas práticas políticas que estão sendo combatidas ainda não nasceram alternativas à velha ordem, nem quem as representará concretamente. E todos sabem que é mais difícil matar as velhas ideias do que implantar as novas.

A mídia tem mostrado quase diariamente a atuação dos representantes no Congresso. Uma oligarquia dominante se digladiando na defesa de seus interesses particulares, em sua maioria mais preocupados com seus mandatos do que com os reais problemas da nação. Ignoram o sofrimento dos mais pobres que necessitam acesso aos serviços públicos mais básicos como saúde e educação. Asfixiam a economia desviando recursos de obras de infraestrutura para outras que atendem seus interesses particulares. Deixam o país à deriva na segurança pública com índices alarmantes de mortos por armas de fogo que superam as estatísticas dos países atualmente em guerra.

A oligarquia, a nova e a velha, que habita o Congresso tem uma única unanimidade. Unir forças contra aqueles que a combatem. Juízes e promotores são alvos de seus ataques. Personificam sua violência oratória contra aqueles que mais avançaram nas investigações de seus malfeitos. As juras de inocência se tornam repetitivas, cansativas e refletem a manifestação possível esperada de qualquer criminoso. O povo está cansado de ouvi-las.

Superar a inércia política é necessário, pois o cansaço do povo brasileiro é evidente. Há uma única saída pacífica para o problema. A manifestação do voto em 2016 foi contundente e espera-se muito mais para 2018, como a única saída possível. As recentes eleições na França mostraram que esse é o caminho. Naquele país 72% do parlamento se renovou. São 415 novos deputados em uma Assembleia com 577 lugares. Esse resultado foi precedido pela eleição de um presidente, Emanuel Macron, que de acordo com os eleitores representaria o novo na política.

É importante que se dissemine em toda a população o sentimento de que a saída é política, com a participação de todos. Ignorar a política não é solução. O poeta alemão Bertoldo Brecht tem uma frase que expressa com clareza nossa atual realidade. “Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem”.

Reinaldo Dias é professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, campus Campinas. Sociólogo, doutor em Ciências Sociais e mestre em Ciência Política pela Unicamp.

Sobre o Mackenzie
A Universidade Presbiteriana Mackenzie está entre as 100 melhores instituições de ensino da América Latina, segunda a pesquisa QS Quacquarelli Symonds University Rankings, uma organização internacional de pesquisa educacional, que avalia o desempenho de instituições de ensino médio, superior e pós-graduação.

Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »