29/06/2015 às 13h08min - Atualizada em 29/06/2015 às 13h08min

Nuccia De Cicco

Escritora

Thiago Santos

 Thiago Santos: Quem é o ser humano Nuccia De Cicco?

 Nuccia De Cicco: Sempre achei que me descrever é uma das coisas mais difíceis que já fiz e tenho a fazer, pois mudo a todo instante. Não a personalidade em si, a essência, porém meus pontos de vista, opiniões, minhas ambições, gostos. Todo dia é uma nova Nuccia quem acorda para um novo mundo.

 Em essência, sou uma carioca de alma. Detesto sentir frio, adoro dias de sol; estranhamente, não gosto muito de praias, preferindo ficar na floresta, em cachoeiras. Não sei viver sem livros, meus amigos, meus bichinhos, minha família, mas adoro ter meu tempo de solidão. Sou uma pessoa simples, com amor pela vida em todas as suas formas. Alguém que sabe ver o lado bom de coisas ruins, e sabe entender o mau aspecto de coisas maravilhosas. Sou uma pessoa prática e racional que é capaz de se apaixonar por alguém apenas pelo jeito como conversa comigo e que consegue ver o fino fio da existência como humana ao observar uma árvore ao sabor do vento. Sou muito transparente e, interessantemente, sou sempre muito mais do que as pessoas conseguem ver.

 Hoje (2ª-feira, dia 22/06/2015), eu sou uma pessoa alegre e agradecida, mesmo com um princípio de gripe chato pra danar. Alguém que abraçou com força todos os seus bichinhos de estimação, deu um beijo em sua mãe, xingou a bateria do celular e foi trabalhar já antevendo uma semana extremamente cansativa e gratificante. Hoje, estou morrendo de saudades, me forçando a esquecer e, ao mesmo tempo, lutando para lembrar sempre. Talvez amanhã, seja tudo isso e mais um pouco, ou então seja completamente diferente. Mas, e daí? Viver nunca foi uma constante.

 

 Em que momento de sua vida a “arte e você se deram as mãos”, seguindo assim no ciclo da vida?

 Se eu for parar para pensar e definir uma data específica, acho que seria o dia em que nasci. Desde a mais tenra infância, eu participo de apresentações teatrais e de dança. Ao crescer, os estilos mudaram, mas a arte em si não me abandonou. Saí das apresentações teatrais do colégio infantil e fui para apresentações de jazz, um pouco de ballet, na adolescência meu maior contato foi com poesias e saraus e, na vida adulta, cheguei à Dança do Ventre (ou ela chegou a mim, já que nunca mais nos largaremos). Então, após amadurecer minha carreira científica, abracei a arte escrita com mais vigor. Uma única oportunidade (de ser aceita em uma antologia) me abriu diversas portas: fiz cursos de aperfeiçoamento literário, tenho vários textos e poesias publicados, um livro em fase final de produção e uma trilogia em fase inicial de escrita. O mais importante que a arte me deu ao longo de tantos anos foram meus amigos. Minhas irmãs de dança, Akifs e Jalilahs, meus [email protected] [email protected], amigos autores, parceiros de trabalho. O carinho que cada um me dá, seja aos montes ou em pedacinhos, seja ao meu lado ou via internet, faz tudo valer a pena.

 

 Baseado no seu viver em prol da arte. O que sente um artista no exercício da mesma?

 Minha sensação principal é plenitude. Você cria personagens e ambientes, mundos e sensações, mas tudo é parte de você. Você dança suas emoções, você expõe um lado íntimo seu. Não é ‘apenas você’, é ‘toda você’ ali. São poucos os que percebem; às vezes, nem você mesma percebe que se doou tanto. Ao final, se eu me sinto completa e feliz, então eu alcancei o que desejava. Quando não danço ou não escrevo como eu mesma, porque desejo, porque gosto, a sensação é de ausência. Faltou uma parte importante de mim naquele momento. Por isso, minha sensação é de plenitude, porque eu estou no que faço.

 

 Temos em comum. Paixão por seriados!

 Rapaz! Assistir séries é tão bom! As séries que assisto vão desde comédias ao terror, passando pelos clássicos de quadrinhos, fantasia e policiais. É muito mais do que só entretenimento. Eu busco entender os personagens, analisar as interpretações (é comum ter personagens secundários ganhando destaque devido à interpretação do ator), imergir no mundo da série. Em todas elas, há aquele momento em que você se identifica, seja com a ação ou com a fala do personagem. Eu sou aquele tipo de ‘seriador’ que está sempre com algumas temporadas atrasadas (às vezes, seriados inteiros atrasados...). Acompanho muitos ao mesmo tempo, e nem sempre posso estar à frente da TV no horário de exibição. Costumo ver na hora do almoço, um episódio por dia, uma série por vez.

 A série que mais tem me surpreendido ultimamente é Penny Dreadful. Possui um ótimo enredo, não enfadonha o espectador, traz diálogos de cunho poético e filosófico, há arte mesclada em cada cena. Todos os personagens são complexos e possuem segredos que o espectador quer, precisa desvendar e, ao mesmo tempo, sabe que não deve, pois a beleza é justamente o mistério de ser de cada um. A interpretação de Eva Green como Vanessa Ives, uma médium atormentada por demônios, é de uma perfeição suprema. Mas, nenhum dos demais atores fica para trás; são todos muito bons mesmo.

 

 Sua graça é cientista?

 Pois é! A carreira como cientista é minha primeira profissão. Fiz a graduação em Biologia, meu Mestrado e Doutorado em Bioquímica, tudo na mesma universidade em que trabalho atualmente, após ter passado no concurso público. Meu projeto de pesquisa principal busca entender como organismos parasitas unicelulares conseguem captar, produzir e metabolizar lipídios (moléculas de gordura), em especial lipídios que ‘roubam’ dos hospedeiros, como o colesterol. Os parasitos que estudo fazem parte do reino Protista, e causam doenças cujas curas ainda não foram descritas, apesar de já existirem vacinas e vários remédios que controlam e regridem as doenças (Leishmaniose e Doença de Chagas). Eles não possuem todas as moléculas necessárias para produzirem seus próprios lipídios, por isso sequestram dos hospedeiros, sejam mamíferos ou insetos.

 Um outro projeto que participo é o Projeto Surdos-UFRJ, que visa a inclusão do indivíduo Surdo através do conhecimento científico. Nele, buscamos fazer com que os alunos Surdos vivenciem a ciência, fazendo questionamentos e experimentos eles próprios, em cursos de curta duração. Também ajudamos na formação de mediadores Surdos para Museus de Ciência e Arte, estágios de laboratório e cursos de extensão.

 O que gosto em ser cientista é de trabalhar na bancada. Pesquisar sobre o assunto, pensar no experimento, fazê-lo, analisar o resultado, reclamar quando não é o que você espera, vibrar quando o resultado é o esperado. Ciência é mais do que se vestir com um jaleco branco, usar óculos e pranchetas, falar complicado. Eu vejo ciência como uma forma de praticar os questionamentos do mundo: se você não entende o porquê de algo ser assim, vá atrás de uma resposta.

 

 Você exerce uma arte que considero uma das mais belas expressões da arte humana. Dança!

 Dançar é muito mais do que um exercício. Traz leveza à alma, ao coração. É escrever poesia com movimentos do corpo. De muitas formas, há mais expressão exposta dançando do que escrevendo. Por ser a Dança do Ventre a leveza é muito maior. Eu fiz jazz e ballet quando criança, mas só depois de adulta me decidi e fixei o estilo oriental. Não sou uma profissional registrada, pois não pude fazer a prova do sindicato antes de ficar surda. Mas, sou uma aluna assídua e busco inovar dentro dos meus limites.

 A Dança do Ventre, cujo nome correto é Dança do Oriente, é um estilo de dança muito peculiar. Nele, os bailarinos precisam saber conectar os movimentos do corpo de acordo com o ritmo e o instrumento musical que está tocando. Quando fiquei surda, precisei trocar o modo como reconhecia os sons da música, passando a analisar a música em números e compassos ao invés de melodias e ritmos. A ausência de som não incomoda quando é a alma que escuta.

 Sou bailarina oriental desde 2001 e surda desde 2007. Meu nome artístico é Karissa Kamra. Já fiz vários concursos em grupo, alguns em dupla; fiz algumas apresentações em solo, playback e ao vivo, antes e depois da surdez. Porém, estou em aprendizado constante, não me considero o suprassumo da sabedoria em área alguma.

 E uma outra, que para mim também faz parte do ciclo em perfeição já criado pelo ser humano. Poesia!

 Eu comecei a escrever poesias quando comecei a estudar literatura, na adolescência, fase em que os sentimentos estão aflorando, desabrochando. No entanto, minhas primeiras poesias não falavam de amor, e sim de vida e morte. Posteriormente, vieram os poemas amorosos, românticos e de outros temas. Quase todas essas poesias, eu perdi; boa parte, dei para a pessoa e não consegui obter de volta. Parei de escrever poesias durante muito tempo, retornando a ter inspiração há alguns anos. Agora, creio que não paro mais.

 A poesia é um jeito especial de trançar as emoções em palavras. Muitas coisas parecem que não podem ser escritas, mas em poesia ficam perfeitas. Eu não tenho o hábito de trabalhar a métrica ou modelar estrofes; o que acontece é meio incontrolável. As palavras surgem, e se colocam em poesia sozinhas, tudo que eu faço é anotar. Se, por acaso, não anoto, esqueço e perco a poesia. Depois, ao transcrevê-las ao computador, é que procuro analisar se modifico alguma palavra, se mantenho rimas ou não.

 Em mim, a poesia flui. Se forçar, pensar, procurar, as emoções não se trançam e as palavras não saem.

 

 Também possui textos e poesias publicadas em várias antologias?

 Em 2014, quando completei meu doutorado, percebi que poderia investir em outras áreas de estudo. Após dois anos de embromação, finalmente decidi escrever meu livro e me aprofundar na carreira de escritor. Então, comecei cursos à distância (na WWCursos, uma filial da Editora WWLivros) e a participar de seleção de contos para antologias. A primeira seleção eu soube por um grupo de escritores em uma rede social. Meu primeiro conto (“Pendências”) e duas poesias mais antigas (“Dúvida” e “Maldita Saudade”) foram selecionados para Antologia Amor e Morte, em agosto/setembro/2014. A partir daí, as oportunidades começaram a aumentar e desde então eu já tenho 3 cursos completos e outros textos selecionados para as seguintes Antologias, todas organizadas pela autora Rô Mierling: “Lenço Vermelho” (conto), na Antologia Sombras e Desejos; “Curiosidade” (conto), na Antologia eu me Ofereço-Tributo a Stephen King; “Quanto tempo”, “Paradoxo de uma vida”, “365 dias”, “Vida corrida” e “Eu danço” (5 poesias) para a Antologia Vida e Verso.

 Querendo ler os contos e as poesias, podem acessar meu blog (http://1001nuccias.blogspot.com.br/).

 

 E o que sentiu ao se deparar com a notícia de que sua obra “Pérolas da Minha Surdez” será publicada neste ano?

 Nossa... É tão empolgante... Na verdade, é um conjunto de emoções tão grande que chega a ser complicado explicar. Não há gratificação e/ou presente maior do que ver seu esforço, sua pesquisa, sua vida ser tão importante para alguém que ele deseja publicar e divulgar. É fenomenal.

 Veja só, no último dia 12/06/2015, eu completei 8 anos de surdez e fiz o registro de direitos autorais do livro na Biblioteca Nacional. Minha vontade de escrever um livro sobre a surdez e minha história como surda já tem mais de 2 anos, porém, além do tempo restrito pelo doutorado, também achava que não haveria apoio e mercado suficiente. Eu não conhecia nada do mercado literário. Após a insistência de uma amiga e da opinião positiva de outros amigos e familiares, decidi realmente escrever a obra e publicá-la. Entre concursos, falecimento do meu pai, reforma de casa, e trabalho normal, levei quase um ano para finalizar a escrita do livro.

 Quando estava quase no fim do processo de escrita, outro amigo meu, Orfeu Brocco, me indicou a uma editora. Nessa mesma época, o livro estava disponível na plataforma Wattpad e uma segunda editora me contatou. Enquanto eu analisava a proposta destas 2, o editor da WWLivros (de Porto Alegre/RS) me enviou notícia que meu livro foi selecionado no curso e enviou sua proposta. Ao fim de duas semanas de análise de contratos, por mim e pela minha mãe, a WWLivros foi a escolhida.

 

 Pode falar algo sobre o livro?

 A reação das pessoas quando eu digo que sou surda não varia muito. A maioria fica chocada. Porque, na raiz cultural, surdos não conseguem falar, não conseguem fazer faculdade, não conseguem dançar. Como surdos fazem sexo? Nunca um surdo será um cientista renomado, um bailarino principal, um palestrante, um técnico forense, etc. É só o senso comum, porém é um senso muito errado.

 Eu fiquei surda com 27 anos de idade. A esta época da minha vida, minha fala estava perfeitamente formada, minha carreira de cientista e bailarina estavam em andamento/estudo, estava recém-separada de um relacionamento duradouro. Uma mutação genética me fez perder a audição e eu tive de enfrentar e me adaptar. Aprender a ver o mundo ao invés de ouvi-lo, aprender a fazer leitura labial, aprender uma nova língua, responder todas as perguntas equivocadas das pessoas, reaprender os ritmos musicais pela sua vibração.

 Escrever o “Pérolas...” envolveu não só minha memória, como a memória de muitas pessoas que estiveram presentes na vida nova. Aos amigos mais íntimos, pedi um presente: de deixarem os leitores verem como eu sou, como eu mudei pelos olhos deles. Também precisei fazer muita pesquisa sobre história da surdez e personalidades surdas, pois não queria mostrar apenas eu como alguém que encontrou seu caminho. Existem surdos famosos, com prêmios nas suas áreas, tanto no Brasil como no exterior. Pesquisei, ainda, um pouco sobre tecnologias que auxiliam na reabilitação auditiva e na comunicação do dia-a-dia.

 Quem quiser ver o processo de edição e publicação do livro, bem como receber notícias e curiosidades sobre surdez, pode acessar a página do livro no Facebook (https://www.facebook.com/pages/P%C3%A9rolas-da-minha-Surdez/625485890883157?fref=ts).

 O livro está em fase de revisão na editora e de preparação da capa. Após revisão final, passará pela diagramação e impressão. A premissa é que o mesmo seja publicado ainda este ano, até meados de dezembro, mas o prazo oficial vai até fevereiro de 2016. Aguardem ansiosamente (assim como eu!)

 

 De tudo o que você já viveu até o momento em prol da arte. Quais palavras diria para aqueles que no momento buscam inspiração para o todo de suas vidas?

 Existem poucas coisas no mundo que acontecem por acaso. Mas você só as mantêm acontecendo se esforçando muito. Quer ser bailarino, escritor, pintor, cientista, engenheiro, físico quântico, economista, educador? Estude. Estude mais. Por estudo, quero dizer não apenas ler; pratique. Quando você achar que sabe o suficiente, procure um curso diferenciado e você descobrirá algo novo. E nunca desista de um sonho. Vai demorar, vai ser difícil, vai parecer caro e impossível. Faça! Aceite as críticas boas com humildade e as ruins com perspectiva. Retribua cada mensagem de carinho e seja educado na resposta para cada mensagem grossa ou insultante. VOCÊ é o artista, não desça do palco!

 

 Para finalizar nos fale dos seus projeots atuais e futuro!

 No momento, estou preocupada com a publicação e divulgação do “Pérolas...”, porém já tenho um outro projeto em fase inicial: serão 3 livros de ficção com toques de fantasia e romance, passando pela doutrina do neopaganismo.

 Além disso, estou tentando conseguir uma bolsa de pós-doutorado para continuar com os meus projetos de bioquímica e mantenho meu trabalho junto ao Projeto Surdos-UFRJ.

 Entrementes, faço divulgação minha e auxilio a divulgação de autores nacionais através do blog, juntamente com os meus vícios (livros, seriados, filmes, poesias, dança).

 Espero conseguir tudo que almejo, cada ato a seu tempo.

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